Unesco registra 189 jornalistas assassinados no mundo em 2024 e 2025, o maior número em uma década

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Informar é um ato político. Sempre foi. Quem manda matar um jornalista sabe disso. Por isso age.

Cento e oitenta e nove. Este é o número de jornalistas assassinados no mundo entre 2024 e 2025, segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira pela Unesco. Um número que choca não apenas pela dimensão, mas pelo que representa: o maior índice de mortes em dez anos, desde o biênio 2014/2015.

A imprensa livre é o espelho incômodo que as estruturas de poder insistem em quebrar. Não é por acaso que 38 dos jornalistas mortos cobriam política, 22 investigavam atividades criminosas e outros tantos denunciavam corrupção. Como bem apontou Sylvie Couldray, diretora da área de Liberdade de Expressão da Unesco, reportar sobre determinados temas pode ser tão perigoso quanto pisar em uma zona de guerra. A frase é uma sentença sobre o estado atual da democracia no mundo.

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Há algo ainda mais perturbador nesse retrato. Em pelo menos 15 casos registrados, os profissionais foram alvejados mesmo usando coletes com a identificação de “imprensa” ou estando em carros claramente marcados. A imprensa não foi apenas ignorada como garantia de proteção. Foi usada como alvo.

A Palestina concentra 62 das mortes do período, um terço de todo o levantamento. Esse dado não pode ser lido de forma asséptica, como se fosse apenas uma estatística geográfica. Ele é o reflexo de um conflito em que a narrativa é disputada com balas, em que eliminar o repórter é uma estratégia de silenciar a história. Cinquenta jornalistas foram mortos por drones. A tecnologia que deveria servir ao desenvolvimento humano foi colocada a serviço do apagamento de quem conta a história dos que morrem.

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Mas a violência não é o único instrumento de silenciamento. A impunidade é, talvez, o mais eficaz deles. Desde 2006, 1.641 jornalistas foram assassinados no mundo. Desses, apenas 223 casos foram solucionados pela Justiça, ou seja, 14% do total. Oitenta e seis por cento das mortes ficaram sem resposta institucional, seja porque os processos não foram concluídos, seja porque as autoridades nem se dignaram a responder à Unesco. Em um único ano, esse índice de impunidade subiu um ponto percentual, quebrando uma tendência de queda que durava desde 2012.

A impunidade é a mensagem. É o Estado dizendo, na prática, que matar jornalista tem custo zero. E onde o custo é zero, a barbárie se reproduz.

No Brasil, o período registrou um caso: Luisinho Costa, assassinado dentro do estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no Pará, em maio de 2025. Quatro pessoas foram indiciadas, e o inquérito foi encaminhado à Justiça. É um avanço, mas um avanço que não apaga o símbolo brutal do crime: um jornalista morto no próprio espaço onde exercia seu direito de informar.

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O Brasil informou à Unesco que adotou o Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril deste ano pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Trata-se de um passo concreto, e seu reconhecimento internacional pelo organismo das Nações Unidas é relevante. No entanto, protocolos só têm valor quando são aplicados com rigor, transparência e vontade política real. A sociedade precisa cobrar que essa ferramenta não fique no papel.

Também é preciso lembrar que os dados da Unesco tratam exclusivamente de assassinatos. O relatório reconhece que jornalistas enfrentam igualmente sequestros, detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados, ataques digitais, assédio de gênero e restrições à livre circulação. O assassinato é a ponta mais visível de um iceberg de violência cotidiana e estrutural.

Cinco dos 189 mortos tinham entre 15 e 24 anos. Jovens que escolheram o jornalismo como forma de participar do mundo, de dar voz ao que não é dito, de construir o registro histórico do seu tempo. Foram silenciados antes mesmo de consolidar suas carreiras.

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A questão que fica é se a sociedade, os governos e as instituições internacionais estão dispostos a tratar esse extermínio com a urgência que ele exige, ou se continuarão aceitando, em silêncio, que contar a verdade seja, em muitos lugares do mundo, um ato de coragem com prazo de validade.

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