A cena se repetiu mais uma vez no Salão Oval da Casa Branca. Donald Trump, diante de jornalistas, voltou a agitar o espectro da destruição sobre o Irã com a naturalidade de quem discute o cardápio do almoço. “Talvez eu tenha que fazê-lo”, disse o presidente americano ao ser questionado sobre o futuro do programa nuclear iraniano.
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Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro deste ano de 2026, o mundo assiste, atônito, a um conflito que já custou até 100 bilhões de dólares aos cofres americanos, fez os combustíveis dispararem, encareceu as passagens aéreas e empurrou a inflação para cima em praticamente todos os cantos do planeta. Os pobres, como sempre, pagam a conta mais salgada.
Não à toa, nas eleições de meio de mandato realizadas esta semana, o custo de vida foi apontado por 48% dos eleitores americanos como a principal razão do voto. O resultado foi uma “onda azul”: os democratas retomaram a maioria na Câmara e no Senado, varrendo para o lado a agenda bélica do republicano. O povo falou nas urnas o que Trump não quis ouvir nas ruas.
O presidente tenta, agora, reformular a narrativa. Diz que a guerra era necessária, que não havia escolha, que um Irã nuclear seria o fim de tudo. É o discurso clássico do imperialismo que se veste de inevitabilidade para justificar o injustificável. A mesma lógica que destruiu o Iraque em nome de armas que nunca existiram. A mesma retórica que transformou o Oriente Médio em um cemitério de promessas e de gente.
O que os números mostram, porém, é que 55% dos americanos acreditam que a ação militar não valeu o custo. Não é pouca coisa. É mais da metade de um país que, apesar de toda a máquina propagandística disponível, se recusa a engolir a guerra como solução.
Do lado de cá do Atlântico, o impacto também se faz sentir. O Brasil, que importa combustíveis e sofre os efeitos de qualquer turbulência no mercado internacional de petróleo, viu os preços subirem na esteira do conflito. A população brasileira, especialmente a mais vulnerável, paga no bolso as decisões tomadas em Washington e Tel Aviv, sem ter tido qualquer voz no processo.
O cessar-fogo fracassou. A guerra continua, ainda que em menor intensidade. E Trump segue ameaçando, num ciclo que revela muito sobre a natureza do poder imperial: ele não precisa destruir tudo, basta manter o mundo sob a sombra permanente da ameaça. O medo é, em si mesmo, um instrumento de dominação.
O que a “onda azul” americana demonstra é que há um limite para o quanto as populações aceitam ser arrastadas para guerras que enriquecem contratantes de defesa e empobrecem trabalhadores. A derrota eleitoral de Trump não resolve o conflito nem devolve os bilhões gastos, mas é um sinal de que a consciência coletiva ainda respira.


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