A pecuária leiteira faz parte da história de José Roberto Fernandes há praticamente toda a vida. Na região de São Miguel, zona rural de Porto Franco, no sul do Maranhão, a atividade atravessou gerações, acompanhando as mudanças e os desafios enfrentados pela família. Mas nem sempre a experiência acumulada ao longo dos anos foi suficiente para garantir a continuidade da produção. Diante das dificuldades para alimentar o rebanho e da falta de conhecimento técnico, José Roberto chegou a considerar abandonar a atividade à qual dedicou boa parte de sua vida.
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“Quando a assistência técnica chegou na propriedade, era o período que a gente estava pensando em desistir da atividade. Muita dificuldade, sem conhecimento dentro da atividade, sem tecnologia”, relembra o produtor.
A possibilidade de desistência começou a dar lugar a uma nova maneira de trabalhar com a adoção de melhorias na propriedade e o acesso a orientações especializadas. Entre as mudanças estão o planejamento da alimentação animal, a produção de silagem e o aprimoramento da gestão produtiva. O processo ganhou impulso em 2024, com a participação no Programa Agentes Locais de Inovação (ALI Rural), do Sebrae, e teve continuidade por meio de consultorias do Projeto Agro Maranhão Região Tocantina, desenvolvido pela instituição.
Os resultados já podem ser observados na produção. Conforme levantamento das consultorias realizadas na propriedade, a média diária de leite passou de 80 litros, em 2025, para aproximadamente 110 litros em 2026, um crescimento de 37,5%. Além do aumento no volume produzido, as mudanças na alimentação contribuíram para dar maior regularidade à atividade, especialmente durante o período de estiagem.
Descendente de uma família que migrou de Goiás para o Maranhão, José Roberto conta que o trabalho no campo começou com o cultivo de lavouras. A pecuária leiteira surgiu posteriormente como uma possibilidade de ampliar a renda familiar e acabou se tornando parte da rotina da propriedade há cerca de três décadas. Ao longo desse período, os conhecimentos eram transmitidos de geração em geração, mas as exigências da atividade tornaram necessário repensar práticas e incorporar novas técnicas de produção.
“A gente sempre trabalhou na cadeia do leite. Eu costumo dizer que, antes do Sebrae chegar nas propriedades, a gente era tirador de leite. A gente se tornou produtor de leite”, afirma José Roberto, ao definir a mudança na forma de compreender o próprio trabalho.
A transformação acontece em um município onde a atividade leiteira tem participação expressiva na economia rural. Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Porto Franco produziu aproximadamente 20,3 milhões de litros de leite em 2025, ante 19,9 milhões no ano anterior. Os dados ajudam a dimensionar a importância da produção local e o desafio de fortalecer a produtividade e a sustentabilidade econômica das propriedades.
Alimentação na estiagem
Entre as mudanças implementadas na propriedade, uma das mais significativas está relacionada à alimentação do rebanho. Antes das orientações e consultorias, José Roberto enfrentava dificuldades para manter os animais alimentados durante a estiagem, período em que a disponibilidade de pastagens diminui.
A alternativa foi investir no cultivo de forrageiras e na produção de silagem, técnica que permite conservar alimentos vegetais para utilização nos períodos de escassez. Com áreas destinadas a esse cultivo, a propriedade passou a incorporar milho, capim BRS Capiaçu e moringa ao planejamento alimentar dos animais.
“A gente não tinha a cultura de dar comida para os animais no período de estiagem. A gente está trabalhando com as culturas de silagem, com milho, capim Capiaçu e também com a moringa”, explica o produtor. Em 2026, a propriedade produziu aproximadamente 14,5 toneladas de silagem, destinadas à alimentação do rebanho durante o período sem chuvas. A formação desta reserva representa um avanço na organização da produção, permitindo maior previsibilidade no fornecimento de alimentos e melhores condições de manejo ao longo do ano.
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a silagem é produzida por meio da conservação de forragem em ambiente sem presença de ar, utilizando a fermentação para preservar o alimento. Entre as variedades utilizadas está o BRS Capiaçu e cultivo de capim-elefante, que se destacam pelo elevado potencial de produção de forragem e podem contribuir para reduzir os custos de alimentação do rebanho.
Na propriedade de José Roberto, o planejamento alimentar também favorece a manutenção das condições nutricionais dos animais durante a estiagem, buscando preservar o desempenho do rebanho mesmo quando a oferta de pastagem diminui.
Com reservas de silagem já preparadas, o produtor reconhece nessa mudança uma das principais conquistas do processo de transformação. “A silagem hoje, aqui na produção, no período de estiagem, eu diria que representa cem por cento de evolução, porque os animais vão ter um desempenho melhor”, avalia.
Cooperação e conhecimento fortalecem a produção rural
O processo vivenciado por José Roberto está inserido em um trabalho iniciado em 2024, com a participação no ALI Rural, que atuou como facilitador na identificação de desafios e na aplicação de ferramentas de inovação e gestão à rotina dos produtores. Paralelamente, as consultorias do Projeto Agro Maranhão Região Tocantina deram continuidade ao atendimento, oferecendo orientações voltadas à melhoria dos processos produtivos, à alimentação do rebanho e à organização das propriedades.
Segundo a analista técnica do Sebrae na Unidade Regional Tocantina, Aline Maracaípe, o diagnóstico inicial identificou a escassez de alimento para o rebanho como um dos principais desafios enfrentados pelo grupo de dez produtores de leite que participou do programa.
“Quando chegamos em 2024, estava uma situação bem precária, por falta de alimentação. Desde esse período, estamos nesse acompanhamento junto com eles, principalmente com foco na alimentação dos rebanhos”, explica.
Além da adoção de técnicas para produzir e conservar alimento, o trabalho ganhou uma dimensão coletiva. Os produtores passaram a colaborar nas atividades de preparação da silagem, compartilhando esforços para enfrentar dificuldades relacionadas à disponibilidade e ao custo da mão de obra. A cooperação também se estende à aquisição de alguns insumos, contribuindo para reduzir despesas e fortalecer a organização do grupo.
“É um trabalho muito forte, de forma coletiva, em que cada um se apoia, principalmente quando vão fazer a silagem. Esse trabalho traz redução de custo da mão de obra, fortalecimento da união deles e compra de alguns insumos de forma coletiva”, destaca Aline.
Na avaliação da analista, os resultados demonstram como a aplicação de ferramentas de gestão, associada às consultorias e às melhorias produtivas, pode impactar a atividade rural. Além do crescimento da produção leiteira, o planejamento alimentar tem contribuído para manter maior constância no volume de leite durante a seca e preservar boas condições nutricionais do rebanho, aproximando o desempenho desse período daquele observado na estação chuvosa.
A experiência também evidencia a importância da continuidade do atendimento após a participação no ALI Rural. Por meio de outros projetos, o Sebrae mantém o suporte aos produtores, acompanhando a implementação das melhorias e o desenvolvimento das atividades. Para 2027, a previsão é que o Projeto Agro Maranhão Região Tocantina concentre seus atendimentos na cadeia produtiva do leite, ampliando o foco em um dos segmentos relevantes para a economia rural da região.
Uma nova maneira de produzir
Na propriedade de José Roberto, a transformação vai além da alimentação dos animais. O produtor destaca os avanços no melhoramento genético do rebanho e o acesso a conhecimentos e serviços especializados como fatores importantes para a evolução da atividade. “Hoje nós temos tecnologia dentro da propriedade. Evoluiu bastante. Hoje nós temos genética na propriedade. Aquelas vaquinhas de quatro, cinco litros, hoje a gente tem uma genética muito boa. A tendência é melhorar mais sempre”, relata.
O acesso a práticas como a inseminação artificial, aliado ao planejamento alimentar e às orientações de gestão, passou a integrar o processo de aperfeiçoamento da atividade. Os avanços na produção diária de leite e a formação de reservas alimentares demonstram como a incorporação de novas tecnologias e o acompanhamento continuado podem contribuir para melhorar o desempenho produtivo e fortalecer a administração da propriedade.
Para quem chegou a considerar o abandono da pecuária leiteira, continuar produzindo ganhou um novo significado. A atividade herdada dos antepassados permanece como parte da história de José Roberto, mas agora incorpora planejamento, conhecimento e novas perspectivas de desenvolvimento. Em São Miguel, a experiência do produtor evidencia como a combinação entre tradição, inovação e acesso a orientações especializadas pode criar condições para fortalecer a produção familiar e garantir sua continuidade no campo.


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