Uma pesquisa que buscava descobrir do que se alimenta uma espécie de cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena brasiliana), réptil que vive no subsolo, acabou revelando também a presença de fibras de microplástico no estômago de quatro dos 108 animais analisados em Santarém, no Pará. Embora o estudo não tenha sido desenvolvido para investigar a contaminação por plásticos e o resultado seja preliminar, a descoberta levanta questões sobre a presença desses resíduos em animais subterrâneos. Conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a pesquisa foi publicada na revista científica Brazilian Journal of Biology na sexta-feira (6).
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O estudo também revelou que os cupins são o principal alimento da espécie, seguidos por formigas e besouros. A dieta concentrada em poucos tipos de presa indica que a espécie tende a ser especialista, enquanto anfisbênias costumam ser vistas como generalistas. O resultado é inédito: até então, a alimentação da espécie era desconhecida, e das 82 espécies de anfisbênias conhecidas no Brasil, apenas nove tinham dados sobre dieta.
Para medir a variedade da dieta, os pesquisadores usaram um índice que vai de 0 a 1: valores próximos de 0 indicam um animal especialista, que come poucos tipos de presa, e próximos de 1, um generalista. A espécie ficou em 0,18, sinal de uma dieta concentrada em insetos sociais que vivem no solo. A alimentação pouco variou entre machos e fêmeas e entre as estações seca e chuvosa.
Os cientistas analisaram 108 exemplares coletados entre 2004 e 2025 na área urbana de Santarém (PA) e preservados em coleções científicas: 59 fêmeas, 47 machos e dois sem sexo identificado. Desses, 57 tinham presas no estômago, identificadas a partir de fragmentos de asas, mandíbulas e outras estruturas que resistiram à digestão.
Os besouros, embora menos numerosos que os cupins, somaram cerca de 23,5% do volume do conteúdo estomacal, provavelmente por serem presas maiores. Houve diferença significativa entre jovens e adultos, puxada principalmente por formigas e cupins. Na seca, por exemplo, besouros foram o item mais importante para os jovens, e cupins para os adultos.
Cupins e formigas vivem em colônias, que formam concentrações de alimento no solo. Para a bióloga Luana Cruz, doutoranda em Ciências Ambientais da Ufopa e autora principal do estudo, isso ajuda a entender a especialização. “Uma vantagem provável é explorar de forma eficiente recursos abundantes e concentrados. Sobre vulnerabilidade, nosso estudo não avaliou como a espécie responde a alterações ambientais, então não posso afirmar que a especialização a torne mais vulnerável”, explica.
A equipe também encontrou fragmentos ósseos de vertebrados no estômago de duas fêmeas jovens, item registrado pela primeira vez na dieta da espécie.
Os pesquisadores pretendem analisar exemplares de outras regiões, além de investigar especificamente a presença de microplásticos. “Precisamos de amostras ao longo de todos os meses do ano, associando os dados de dieta ao ciclo reprodutivo, para entender se fatores como a chuva influenciam a demanda de energia e o comportamento alimentar”, pontua Cruz.


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