📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
Nikolas Ferreira foi, sem querer, uma das peças mais decisivas na vitória de Lula em 2026. O vídeo em que o então candidato fez sobre o Nordeste, pegou mal, tanto que acabou atraindo votos para o Lula na cidade Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, onde foi gravado a propaganda política. Mesmo assim, Nikolas não aprendeu a lição. Após a derrota, voltou a usar o Nordeste como alvo, sobrepondo a vitória de Lula no Ceará a imagens de violência do Comando Vermelho, completando o quadro com duas palavras que resumem, com invejável economia de humanidade, o projeto político que representa: “Plantou, colheu.”
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O que chama a atenção é que a crítica mais contundente veio de dentro da própria casa. O pastor batista Yago Martins, homem declaradamente de direita e evangélico, foi quem disse em voz alta o que muitos calaram: o comportamento de Nikolas “vai contra o núcleo mais fundamental do evangelho”. Não foi a esquerda que acusou. Foi um correligionário, um aliado de campo, um homem que, por sinal, confessa que votaria em Flávio Bolsonaro “com muita dor no coração” se tivesse comparecido às urnas.
Esse detalhe importa. Não porque valide ou invalide Martins como interlocutor, mas porque expõe a contradição interna de um movimento que transformou a fé em ferramenta eleitoral. O pastor tem razão quando diz que o bolsonarismo “engoliu a direita inteira” e que “mal existe direita no Brasil, existe bolsonarismo”. O que ele talvez não diga com a mesma clareza é que esse processo não aconteceu por acidente. Foi cultivado, financiado e aplaudido por anos a fio, inclusive por setores que hoje lamentam o monstro que ajudaram a criar.
A cena de Nikolas zombando do sofrimento de cearenses é a expressão mais honesta de uma política que sempre enxergou o povo pobre, periférico e nordestino como adversário a ser derrotado, não como cidadão a ser servido. Quando um parlamentar eleito pela Constituição usa seu espaço público para dizer que eleitores de um presidente legitimamente eleito merecem conviver com a violência, ele não está apenas sendo cruel. Ele está sendo coerente com uma visão de mundo que divide o Brasil em merecedores e não merecedores, em patriotas e inimigos, em salvadores e traidores.
Martins aponta, com lucidez, que a direita tem “muito prazer em repetir os pecados que atribuiu à esquerda a vida inteira”. É uma autocrítica rara nesse espectro. Mas é necessário ir além. Os boicotes que hoje punem pequenos comerciantes por terem votado em Lula são a continuação de uma lógica de intimidação que sempre esteve no DNA do autoritarismo brasileiro, da pressão sobre o trabalhador no dia da eleição ao voto de cabresto, do patrão que ameaça demitir ao pastor que orienta o rebanho nas urnas.
O povo do Ceará que votou em Lula não plantou nada que mereça colher violência. Plantou a esperança de que o Estado brasileiro possa, um dia, distribuir com mais justiça o que o trabalho coletivo produz. Plantou a memória de que programas como o Bolsa Família retiraram milhões da fome e que isso, para quem passou fome, não é pauta ideológica. É sobrevivência.
Que um parlamentar federal ria disso é inaceitável. Que parte do país aplauda é o retrato mais doloroso do quanto ainda precisamos caminhar.


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