📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
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Um senador da República, eleito pelo povo brasileiro, gravando entrevistas de um apartamento em Miami enquanto os bolsonaristas, que jurou servir, seguem seu curso sem ele. Flávio Bolsonaro escolheu o exílio voluntário antes mesmo de qualquer condenação, antes mesmo de qualquer julgamento concluído. Fugiu. E, ao fugir, disse mais sobre si mesmo do que qualquer processo judicial poderia dizer.
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A entrevista ao The New York Times, anunciada por seus apoiadores como um momento de revelação e denúncia, terminou sendo o oposto disso. O próprio jornal tratou de deixar claro, já no subtítulo, o que o leitor encontraria nas linhas seguintes: alegações sem fundamento, teorias já desmentidas, o eco de um discurso que o próprio pai tentou usar para solapar a democracia brasileira e falhou. O NYT não precisou ser duro. A realidade bastou.
Flávio repetiu a cantilena familiar: fraude, manipulação, urnas suspeitas. Um sistema que especialistas internacionais classificam como um dos mais seguros do mundo voltou a ser tratado como instrumento de perseguição. A vitória de Lula, matematicamente impossível, segundo ele. Uma afirmação que desafia não apenas os números, mas a inteligência de quem a ouve.
O que chama atenção, no entanto, não é apenas a repetição do velho roteiro bolsonarista. É a escolha do palco. Flávio Bolsonaro foi até um dos principais jornais do mundo para defender sua narrativa e saiu do encontro com menos de um punhado de aspas aproveitáveis, cercado por notas de contexto que desmontavam suas afirmações em tempo real.
O jornal também lembrou o que o senador preferia que ficasse de fora: as investigações por lavagem de dinheiro e corrupção que pesam sobre ele no Brasil, a ordem judicial de entrega de passaportes que antecedeu sua partida, a prisão do pai pela tentativa de golpe após a derrota em 2022. Fatos, apenas fatos.
A retórica do mártir político tem um limite quando os documentos falam mais alto do que os discursos. No Brasil, o Judiciário pode ter suas contradições e merecer debate franco, como qualquer instituição republicana merece. Mas confundir investigação com perseguição, e perseguição com ditadura, é uma operação ideológica que a direita radical brasileira pratica com maestria e que a realidade insiste em desmentir.
A classe trabalhadora brasileira, que elegeu Lula e voltou a rejeitar o bolsonarismo nas urnas, não merece ver seu voto tratado como suspeito por quem perdeu. A democracia não é um jogo que termina quando o placar não agrada. Ela é, antes de tudo, o compromisso coletivo de aceitar que o povo decide, mesmo quando a decisão dói.


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