📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
Os mesmos que passaram anos atacando as urnas eletrônicas brasileiras, espalhando mentiras sobre fraudes inexistentes e colocando em dúvida um dos sistemas eleitorais mais modernos e auditáveis do planeta, são os que olham para os Estados Unidos com olhos de adoração. Pois bem. Essa semana, a maior democracia do mundo decidiu uma eleição jogando moeda.
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No condado de Robertson, no Kentucky, dois candidatos ao cargo de magistrado do 2º Distrito chegaram ao fim da apuração com exatamente 91 votos cada um. A solução encontrada pelo estado? Uma moeda de 25 centavos. Coroa. A democrata Kristen Fryman venceu. Seu adversário republicano escolheu cara, perdeu, e ficou sem o cargo.
Não há urna eletrônica para atacar nessa história. Não há algoritmo para questionar. Não há ministro do Tribunal Superior Eleitoral para xingar nas redes sociais. Há apenas uma moeda no ar e a sorte decidindo quem vai exercer poder sobre a vida de pessoas reais.
E aqui mora o constrangimento que nenhum bolsonarista vai querer enfrentar. Durante anos, o discurso da extrema direita brasileira foi construído sobre dois pilares simultâneos: a desconfiança total no sistema eleitoral do Brasil e a veneração quase religiosa ao modelo norte-americano. Os Estados Unidos eram apresentados como o espelho que o Brasil deveria mirar, o exemplo de liberdade e lisura democrática que a nossa “ditadura do TSE” jamais alcançaria.
O problema é que os Estados Unidos não têm uma legislação eleitoral nacional unificada. Cada estado estabelece suas próprias regras. No Kentucky, a lei simplesmente autoriza o sorteio quando há empate. Em outros estados, o desempate pode vir de um novo escrutínio restrito a membros do partido, ou de um sorteio de nomes em chapéu, ou de qualquer outro mecanismo que a tradição local tenha consagrado. É uma colcha de retalhos normativa que faria qualquer defensor sério da segurança eleitoral corar de vergonha.
O Brasil, ao contrário, construiu ao longo das últimas décadas um sistema unificado, transparente e auditável. As urnas eletrônicas brasileiras são testadas publicamente antes de cada eleição, têm o código verificado por partidos e entidades independentes, e nunca tiveram uma única fraude comprovada em mais de 25 anos de uso. O Tribunal Superior Eleitoral, tão odiado pela direita radical, é justamente a instituição que garante que nenhuma eleição brasileira precise ser resolvida no cara ou coroa.
Juízes e magistrados decidem sobre moradia, liberdade, família e trabalho. Quando o critério para ocupar esse cargo pode ser a face de uma moeda de 25 centavos, o que está em jogo não é só a lisura do processo, mas a vida concreta das pessoas mais vulneráveis daquele condado.
Kristen Fryman levou a melhor desta vez. Mas a democracia não pode viver de sorte. Ela precisa de instituições sólidas, regras claras e da certeza coletiva de que cada voto conta, sem depender do capricho de uma moeda no ar.
Quem no Brasil ainda defende que o nosso sistema é uma fraude enquanto aplaude o modelo americano deve, no mínimo, explicar como pretende resolver um empate eleitoral sem a urna que tanto odeia.


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