📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
Quando Donald Trump tentou interferir nas eleições brasileiras, talvez não imaginasse que o Brasil, de forma silenciosa e indireta, acabaria devolvendo o gesto. A política não perdoa ironias, e a história recente prova que nenhuma fronteira é impermeável quando se trata de movimentos populares contra o autoritarismo.
✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as chamadas Midterms de 2026 foram um plebiscito sobre o futuro da democracia, um grito coletivo contra o projeto ultraconservador que tenta, há anos, redesenhar o mundo à sua imagem e semelhança. E o povo falou.
O Partido Democrata conquistou o controle de ambas as casas do Congresso americano. No Senado, 54 cadeiras contra 44 dos republicanos. Na Câmara, ao menos 231 assentos, com 27 viradas diretas sobre o partido de Trump.
O que chama atenção não é apenas a magnitude da derrota republicana, mas o perfil das vitórias democráticas. O Texas, estado que Trump venceu por quase 14 pontos em 2024, elegeu James Talarico para o Senado, o primeiro democrata a representar o estado em 38 anos. No Kansas, Adam Hamilton, pastor metodista de quinta geração, derrubou um senador republicano em um dos estados mais conservadores do país com uma mensagem simples: “Isso não é uma questão de republicanos ou democratas. É uma questão de decência humana.”
Michigan elegeu Abdul El-Sayed, o primeiro senador muçulmano da história dos Estados Unidos. Iowa foi conquistada por Josh Turek, atleta paralímpico nascido com espinha bífida, que bateu de porta em porta subindo ladeiras, literalmente. O Texas ganhou Gina Hinojosa como primeira governadora latina, encerrando mais de três décadas de domínio republicano no estado. A Geórgia terá Keisha Lance Bottoms, a primeira governadora negra da história americana.
Esses nomes são o resultado de um processo de resistência longa, cotidiana e muitas vezes invisível, construído por movimentos sociais, mulheres, negros, imigrantes, trabalhadores e jovens que se recusaram a aceitar o retrocesso como destino.
Há uma linha que conecta o que aconteceu nas urnas americanas com o que aconteceu no Brasil em 2026, quando a população, especialmente das periferias e das regiões mais vulneráveis do país, foi às urnas para resistir. O trumpismo e o bolsonarismo bebem da mesma fonte: o medo, a desinformação, o ataque às instituições e o desprezo pelos mais pobres. Quando um recua, o outro sente o chão tremer sob seus pés.
A derrota de Trump nas Midterms não resolve os problemas estruturais dos Estados Unidos, nem enfraquece de imediato as forças reacionárias que ainda movem parte significativa da sociedade americana. Mas abre uma janela. E janelas abertas, como a história ensina, costumam mudar a direção do vento.
O Brasil observa, aprende e reconhece no espelho americano algo familiar: a teimosia dos que ainda acreditam que outro mundo é possível. Que a política pode ser feita com decência. Que a diversidade não é ameaça, mas força. Que o povo, quando se move, move a história.


Deixe um comentário