O fim da escala 6×1 começa a valer em 15 de dezembro e abre uma nova fase nas relações de trabalho no Brasil. A partir dessa data, os trabalhadores passam a ter direito a dois dias de descanso semanal remunerado, enquanto o limite da jornada cai inicialmente de 44 para 42 horas, sem redução salarial. Ao fim do período de transição, a carga máxima chegará a 40 horas. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego divulgado pelo Senado, cerca de 14,9 milhões de profissionais cumprem atualmente seis dias de atividade por apenas um dia de folga.
✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
Para a Advogada Trabalhista Fernanda Prado, a alteração vai além da diminuição do tempo em atividade e exigirá mudanças na própria organização dos negócios. “Para as empresas, a mudança exigirá planejamento, revisão de escalas, dimensionamento das equipes e análise de custos. Em setores que funcionam continuamente, como comércio, serviços e saúde, o desafio será manter a operação sem comprometer a qualidade do atendimento e a sustentabilidade financeira do negócio”, analisa a especialista.
O impacto tende a ser especialmente relevante em atividades que precisam preservar o mesmo horário de funcionamento com funcionários cumprindo uma carga menor. Segundo o Especialista em Finanças Empresariais e BPO Financeiro André Albuquerque Jr., essa diferença pode representar uma mudança importante no planejamento das organizações. “Se a jornada cair de 44 para 40 horas semanais, uma equipe de cinco pessoas perde 20 horas por semana, o equivalente a meio funcionário. Repor essas horas pode elevar a folha em cerca de 10%. Num negócio em que a mão de obra representa 30% do faturamento, isso consome aproximadamente 3 pontos percentuais da margem. Para comércio, restaurantes e serviços, que costumam operar com lucro apertado, pode ser boa parte do resultado do mês”, explica.
Ganhos de eficiência, entretanto, podem amenizar parte desse cenário, embora a capacidade de compensação varie conforme a atividade desempenhada. “Em funções medidas por entrega, como atividades administrativas, produção e back office, melhorar processos, automatizar tarefas e reduzir retrabalho podem absorver boa parte das horas perdidas. Há também ganhos indiretos que costumam ser subestimados: menos faltas, menos afastamentos e menos rotatividade”, destaca o especialista o Gestor Financeiro.
Já nos segmentos que dependem da presença física dos funcionários durante todo o período de atendimento, a montagem das escalas ganha ainda mais importância. Fernanda ressalta que a implementação dos dois dias de descanso precisará considerar as particularidades de cada operação. “Para empresas que funcionam todos os dias, como supermercados, hotéis, hospitais e restaurantes, o principal desafio será organizar escalas que garantam o descanso dos trabalhadores sem interromper as operações. Isso pode exigir a contratação de novos profissionais, a redistribuição das equipes ou mudanças nos horários de funcionamento, com impactos diretos nos custos”, explica a Advogada.
Outro ponto em discussão é a possibilidade de os efeitos da mudança chegarem ao consumidor. André observa que o reflexo nos preços depende principalmente do peso da mão de obra na composição financeira de cada negócio. “Se a folha representa 30% do preço de um serviço e sobe 10%, o custo total aumenta cerca de 3%, não 10%. Em setores muito intensivos em mão de obra, como restaurantes, beleza, limpeza e pequenos comércios, o repasse tende a ser mais provável e mais visível. Em negócios mais automatizados, o efeito tende a ser pequeno”, esclarece.
Além da questão financeira, a nova configuração exigirá atenção à distribuição das tarefas para evitar que a diminuição do tempo semanal resulte apenas na concentração das mesmas demandas em um intervalo menor. “Existe, sim, o risco de a empresa tentar concentrar em menos dias o mesmo volume de trabalho, aumentando o ritmo na jornada dos empregados. Por isso, a mudança não pode ser tratada apenas como uma alteração na escala: ela exige uma revisão da distribuição das tarefas, das metas e do dimensionamento das equipes”, alerta Fernanda Prado.
Cada negócio precisará avaliar sua própria realidade antes de definir como se adaptar ao novo cenário. “A concorrência e o perfil do cliente também contam: em mercados muito disputados ou com consumidor sensível a preço, a empresa costuma repassar só uma parte e absorver o restante buscando eficiência. Na prática, o mais comum é um repasse parcial e gradual. Antes de reajustar, o empresário precisa conhecer sua margem de contribuição, porque um aumento feito sem conta pode custar clientes e sair mais caro do que absorver parte do custo”, finaliza André Albuquerque Jr.


Deixe um comentário