Enfrentamento focado no problema reduz sobrecarga de cuidadores de pessoas com Alzheimer

Apoio e estratégias práticas podem aliviar a sobrecarga de quem cuida de pessoas com Alzheimer

Estratégias de enfrentamento focadas no problema, como planejamento e resolução ativa, se associaram a menor estresse e menor sobrecarga em cuidadores de pessoas com Alzheimer. Já estratégias focadas na emoção e em religiosidade/fantasia se associaram a maior estresse e/ou sobrecarga. As conclusões são de um estudo da Universidade Cesumar, do Instituto Nacional de Cardiologia, da Universidade da Força Aérea e da Universidade Estadual de Maringá, publicado na Revista Dementia & Neuropsychologia.

O estudo envolveu 126 cuidadores de pessoas com Alzheimer, profissionais ou familiares, que responderam a questionário online. Foram avaliados o perfil de cuidado e do cuidador, além de sua percepção de estresse, impactos pessoais, sociais, financeiros, físicos e de saúde mental e estratégias de enfrentamento associadas. 

Por meio da Escala Modo de Enfrentamento de Problemas (EMEP), foram considerados o foco em problemas, com esforços para gerenciar ou modificar a situação estressora; o foco em emoções, que inclui evitação, pensamento fantasioso e culpabilização; o uso da religião ou fantasia, como orar ou esperar por milagres; e a busca por suporte social, que envolve a busca de outros para conselhos ou informação. 

A grande maioria dos respondentes, 118, foi de mulheres (contra 8 homens), entre 40 e 59 anos de idade (61,9%), ensino superior completo (60,3%), com parceiros (54,8%), autodeclarados brancos (64,2%) e com renda mensal relatada de um a dois salários mínimos (42,1%). Os resultados apontam para um nível moderado de estresse percebido (média de 29,2%) e um nível leve a moderado de sobrecarga (59,1%) decorrente do cuidado. O enfrentamento focado no problema foi majoritário (64,6 pontos), seguido por foco na emoção (40,3), baseado na religião ou fantasia (23,8) e busca por suporte social (média de 16,5). 

Nas correlações, o enfrentamento focado no problema se associou a menos estresse e menos sobrecarga. O foco na emoção se associou a mais estresse e mais sobrecarga. Religiosidade/fantasia e suporte social também se associaram a maior sobrecarga, em intensidade mais fraca. A análise de rede posicionou estratégias focadas na emoção e na religiosidade/fantasia como nós centrais nas conexões com estresse e sobrecarga.

Daniel Vicentini de Oliveira, coautor da pesquisa, relata que esses resultados devem ser interpretados como um alerta importante: “Embora emoções e religiosidade sejam dimensões valiosas da vida do cuidador, quando utilizadas como única estratégia, podem elevar a vulnerabilidade emocional.” 

Mesmo a busca de suporte social, que costuma ser apontada na literatura como benéfica, teve correlação positiva com a sobrecarga. “Isso sugere que, no contexto do cuidado da pessoa com Alzheimer no Brasil, o suporte social pode ser insuficiente ou pouco resolutivo, o que faz com que essa estratégia não alivie totalmente o peso do cuidado. Esses achados reforçam sua complexidade psicológica.” 

Já estratégias de enfrentamento ativas, como o planejamento de cuidado, a resolução prática de problemas e a busca de informação, podem reduzir a sobrecarga emocional de cuidadores. “Não se trata apenas de ‘ter apoio’, mas de ser treinado para lidar de forma estruturada com os desafios diários”, orienta Vicentini. A criação de políticas públicas direcionadas a programas psicoeducacionais para cuidadores, além de centros de suporte emocional e ações comunitárias de treinamento em modos de enfrentamento adaptativos também são recomendadas, com a tendência a reduzir o adoecimento mental de cuidadores — um problema de saúde pública crescente.

“Cuidar de alguém com Alzheimer não é apenas uma tarefa prática, é um processo emocional profundo, que exige preparação e suporte. O estudo sugere que treinar cuidadores para adotar estratégias mais ativas pode mudar radicalmente sua saúde mental, prevenindo adoecimento e aumentando a qualidade do cuidado oferecido. É um campo emergente e urgente: se queremos cuidar bem de pessoas com Alzheimer, precisamos cuidar primeiro de quem cuida”, diz o cientista.

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