Há exatos 100 anos, em 1926, minha tia-avó e madrinha de batismo formou-se em medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro defendendo a tese “Estudos sobre o Câncer”. Essa conquista, por si só importantíssima e rara para uma mulher naquele momento, não só foi a realização de um grande sonho. Acabou sendo parte do caminho que a levaria, alguns anos depois, à vida pública.
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Em 1933, Carlota Pereira de Queirós, para mim Tia Carlota, foi eleita para a Assembleia Nacional Constituinte, tornando-se a primeira deputada federal brasileira.
A luta pelo voto feminino já vinha de muito antes, ainda no final do Império. Em 1930, as mulheres brasileiras finalmente conquistaram o direito de votar. Em 1934, quando tia Carlota participou da Constituinte, foram eliminadas as restrições ao voto feminino, embora ele ainda não fosse obrigatório para as mulheres. A obrigatoriedade, equiparando homens e mulheres nesse aspecto, só viria em 1946.
Conseguimos imaginar, hoje, que há menos de 100 anos as mulheres brasileiras sequer tinham o direito de votar? E que ocupar uma universidade, uma profissão ou um espaço de poder era ainda uma exceção?
Mas ela foi mestra em não perder oportunidades.
A porta da medicina abriu-se pelas mãos do Professor Miguel Couto, no Rio de Janeiro. Depois de dois meses de muito estudo, sozinha e por conta própria, ainda com a descrença do pai, foi admitida na Faculdade de Medicina de São Paulo. Três anos depois mudou-se para o Rio, onde concluiu o curso, passando a trabalhar na equipe do professor Couto e a atender muitos pacientes, principalmente mulheres e crianças.
Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, já de volta a São Paulo e imbuída do espírito cívico do momento, dedicou-se ao atendimento dos feridos de batalha. Sua atuação acabou levando à indicação, pela Federação dos Voluntários, à concorrer na eleição da Assembleia Constituinte.
Mais uma vez a porta se abriu, e ela se agarrou com afinco.
Proclamou seu discurso de posse com altivez e total consciência da importância do momento: “Além de representante feminina, única nesta Assembleia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com os seus problemas. (…). Nem um só momento me senti na presença de adversários. Porque nós, mulheres, precisamos ter sempre em mente que foi por decisão dos homens que nos foi concedido o direito de voto. E, se assim nos tratam eles hoje, é porque a mulher brasileira já demonstrou o quanto vale e o que é capaz de fazer pela sua gente.”
Tia Carlota permaneceria na Câmara até 1937, quando a implantação do Estado Novo fechou o Congresso Nacional. Ela nunca se afastou totalmente da vida pública, mas voltou a exercer a clínica médica, dedicando-se aos seus pacientes e aos estudos científicos que sempre a moveram.
Em 1942 recebeu o título de membro honorário da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e em 1942 e 1944 foi eleita para a Academia Brasileira de Medicina e para a Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires – sendo, em ambos os casos, a primeira mulher eleita.
Em 1950 recebeu a Legião de Honra da França. Em 1961 participou ativamente da formação da Associação Brasileira de Mulheres Médicas e foi eleita sua presidente, cargo que exerceu por 3 mandatos, até 1967.
Quando de sua eleição, mais um discurso forte e carregado de simbologia: “Tendo me graduado há 35 anos, eu não poderia ter melhor prêmio do que ter à minha volta, como minhas sucessoras, essa nova geração de médicas mulheres, que representam centenas de outras espalhadas pelo Brasil, representando meus antigos ideais.”
Na década de 1960, escreveu ainda dois livros, sobre cada um dos seus avôs: “Um Fazendeiro Paulista no Século XIX” e “Vida e Morte de um Capitão-Mor”. Continuou ativa por muitos anos na Medicina, na produção intelectual e nas organizações das quais fazia parte.
Em 1972, em comemoração de seus 80 anos, a Câmara Legislativa de São Paulo homenageou-a com uma sessão comemorativa e em 1974 participou do 14º Congresso da Associação Internacional das Mulheres Médicas, no Rio de Janeiro.
Mas, para mim, ela também era Tia Carlota. Uma madrinha dedicada e presente. Como a diferença de idade entre nós era muito grande, eu a admirava e, silenciosamente, absorvia suas lutas.
Comecei minha carreira quando ela estava terminando a dela. Ainda encontrei muitas portas fechadas, mas, como ela, agarrei as oportunidades.
Será que, vendo as minhas lutas pelas posições ocupadas por mulheres, ela se orgulharia de mim como eu me orgulho dela? Gosto de acreditar que sim.
Cem anos depois da sua formatura e mais de nove décadas depois de sua chegada ao parlamento, votar continua tendo para mim um significado que vai muito além da escolha de candidatos. É também exercer um direito que mulheres como Carlota ajudaram a transformar em participação efetiva na vida pública, e lembrar que muitas das conquistas que hoje parecem naturais foram abertas por mulheres que aceitaram entrar onde, até então, quase não havia lugar para elas.


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