O cachorrinho percebe que sua tutora está prestes a sair de casa e não gosta nem um pouco da ideia. Ele tenta impedir a despedida, insiste em ficar por perto e parece disposto a fazer qualquer coisa para não vê-la partir. A cena é obra de ficção e faz parte da animação Pets: a Vida Secreta dos Bichos, lançada em 2016, mas guarda tantas semelhanças com a realidade que quem convive com um animal de estimação provavelmente se identificou.
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O filme, que fez sucesso ao imaginar o que cães, gatos e outros animais fazem quando seus tutores saem de casa, parte de uma curiosidade comum entre quem tem um bichinho: afinal, o que acontece depois que a porta se fecha? Na vida real, porém, enquanto alguns animais aproveitam a tranquilidade para descansar, outros podem enfrentar momentos de ansiedade e desconforto.
Fernanda Karollyne, professora do curso de Medicina Veterinária do UniFacimp Wyden, explica que a maneira como cães e gatos reagem à ausência dos tutores depende de fatores como temperamento, experiências anteriores, rotina e condições do ambiente. “Animais acostumados gradualmente a passar períodos sozinhos, que vivem em espaços confortáveis e têm acesso a atividades e estímulos adequados, tendem a lidar melhor com esses momentos. Já aqueles muito dependentes da presença do tutor, que passaram por mudanças bruscas na rotina ou não foram habituados à separação podem apresentar maior dificuldade”, afirma.
Experiências estressantes, falta de estímulos e até problemas de saúde também podem influenciar o comportamento. Por isso, enquanto alguns pets descansam tranquilamente até o retorno da família, outros podem manifestar ansiedade, agitação ou alterações de comportamento que precisam ser investigadas.
E engana-se quem pensa que o apego e a ansiedade de separação são exclusivos dos companheiros caninos. A fama de independentes pode fazer muita gente acreditar que os gatos não se importam quando ficam sozinhos. Mas a relação dos felinos com seus tutores também envolve vínculos importantes, que podem criar dificuldades em uma mudança na rotina.
SINTOMAS DE SAUDADE
Fernanda orienta observar tudo o que representa mudança em relação ao comportamento habitual do animal. “Urinar ou defecar fora do local adequado, deixar de se alimentar, apresentar vocalização excessiva ou, ao contrário, ficar silencioso e quieto demais, por exemplo”, enumera.
A dificuldade é que muitos desses comportamentos acontecem justamente quando o tutor não está presente. Uma alternativa é observar o animal por meio de uma câmera ou gravação durante os períodos de ausência. Isso pode ajudar a identificar se ele consegue descansar normalmente ou passa boa parte do tempo agitado, vocalizando ou demonstrando desconforto.
Também é importante não interpretar automaticamente qualquer mudança como ansiedade de separação. Alterações no apetite, na eliminação de urina e fezes e no comportamento podem indicar problemas clínicos, e a avaliação veterinária é necessária para investigar suas causas.
TRANQUILIDADE
Uma das principais recomendações de Fernanda é tornar o ambiente mais interessante e confortável para o animal. Afinal, passar algumas horas sozinho não precisa significar ficar sem nenhuma atividade. “Ter um ambiente rico em brinquedos e um lugar aconchegante para o pet é importante, porque isso mantém o cão ou gato ocupado. O brincar desestressa e traz sensação de bem-estar”, explica a veterinária.
Brinquedos interativos, atividades que estimulem a busca por alimentos e espaços apropriados para descanso são algumas possibilidades. No caso dos gatos, arranhadores, esconderijos e plataformas em locais elevados também podem contribuir para um ambiente intelectualmente mais estimulante para os pets, mas com uma ressalva: é importante que todos os objetos sejam adequados ao animal e seguros para serem utilizados sem supervisão.
Para cães e gatos que, mesmo tendo muitas atividades à disposição, continuam apegados e ansiosos, Fernanda sugere outra estratégia simples: deixar uma peça de roupa usada pelo tutor, com seu próprio cheiro, em um local onde o animal costuma descansar. O cheiro familiar pode proporcionar conforto durante a ausência. A medida só não é indicada quando existe risco de o pet mastigar ou engolir o tecido.
Outra orientação é acostumar o animal gradualmente a ficar sozinho, começando por períodos curtos e aumentando o tempo conforme ele demonstra tranquilidade. Para os cães, passeios e atividades físicas adequados à idade e às condições de saúde também podem fazer parte da rotina antes da saída do tutor.
E se, apesar de todos os cuidados, você voltar para casa e encontrar um objeto destruído ou uma poça de xixi fora do lugar? Evite castigar o animal. Além de não resolver a causa do comportamento, a punição pode aumentar o medo e a ansiedade.
Se, mesmo com todos os cuidados, o animal continua a demonstrar comportamentos errados ou sofrimento intenso durante a ausência dos tutores, a recomendação de Fernanda é procurar um médico veterinário para uma avaliação. “O acompanhamento veterinário permite investigar possíveis causas clínicas e comportamentais e definir quais medidas são mais adequadas para cada caso, considerando as necessidades do animal e a rotina da família”, conclui.


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