Você abre uma rede social para ver uma publicação específica e, poucos minutos depois, já está assistindo a vídeos de pessoas que nem sequer segue. Uma receita leva a outra, um vídeo sobre viagem faz surgir uma sequência de destinos e basta demonstrar interesse por determinado produto para começar a receber conteúdos semelhantes. Por trás dessa experiência estão os algoritmos, sistemas que aprendem com o comportamento do usuário para decidir o que será exibido com mais frequência.
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O publicitário e professor da Estácio Guilbert de Menezes explica que o mecanismo que define o que você assiste nas plataformas digitais leva em consideração muito mais do que as curtidas. Segundo ele, comentários, compartilhamentos, vídeos assistidos até o fim e até aqueles que são rapidamente ignorados ajudam a construir um perfil de interesses.
“Se uma pessoa costuma consumir conteúdos sobre marketing e cinema, por exemplo, provavelmente verá com mais frequência publicações relacionadas a esses temas, como anúncios de salas de cinema, dicas de filmes, curiosidades sobre produtos e marcas”, explica. As plataformas também podem considerar padrões de usuários com comportamentos semelhantes. Isso explica, por exemplo, porque dois amigos ou até pessoas que moram dentro da mesma casa, ao acessar uma rede social, podem ver conteúdos completamente diferentes entre si.
Escolha ou recomendação?
O processo é tão integrado à experiência nas redes que nem sempre é fácil distinguir aquilo que procuramos daquilo que simplesmente apareceu na tela. Um exercício simples, segundo o professor, é observar o próprio comportamento: você entrou na rede procurando aquele assunto ou apenas começou a consumir o que apareceu enquanto rolava o feed?
“O algoritmo se adapta rapidamente aos nossos interesses e apresenta as recomendações como se fossem uma extensão natural das nossas escolhas”, destaca Guilbert. Por isso, pesquisar assuntos por iniciativa própria e buscar conteúdos fora da página inicial são formas de ampliar aquilo que chega até o usuário.
Bolhas digitais
A personalização também pode influenciar a percepção sobre determinados assuntos. Fora das redes, é comum entrar em contato com opiniões diferentes. No ambiente digital, porém, o usuário pode ignorar pontos de vista contrários. Como todos os conteúdos que aparecem para ele são relacionados a ideias parecidas, é fácil ter a impressão de que determinada opinião é praticamente consensual, mesmo quando não é.
Entre crianças, adolescentes e jovens, o cuidado ganha ainda mais importância. “A exposição repetida a determinados conteúdos pode influenciar referências, padrões de comportamento, autoestima e decisões de consumo justamente em uma fase em que muitas dessas referências ainda estão sendo construídas”, alerta Guilbert.
Dá para “treinar” o algoritmo?
Embora não seja possível controlar completamente as recomendações, algumas atitudes ajudam a interferir no que as plataformas entendem como relevante. Seguir e priorizar perfis de interesse, utilizar opções como “Não tenho interesse”, deixar de seguir contas que já não fazem sentido e fazer uma limpeza periódica no feed são algumas delas. Buscar informações em fontes diferentes e pesquisar assuntos ativamente também reduz a dependência das recomendações automáticas.
Quando disponível, o uso do feed em ordem cronológica e de ferramentas de limite de tempo também podem ajudar. Na prática, já que não dá para simplesmente escapar do algoritmo, em vez de apenas aceitar a sequência escolhida pela plataforma, o usuário participe mais ativamente da construção daquilo que consome. “Entender esse mecanismo ajuda a usar as redes de maneira mais consciente”, conclui o professor.


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