Cientistas, médicos-veterinários, advogados e especialistas do Brasil e do exterior estão preparando uma mobilização conjunta pelo fim do abate de jumentos no Brasil. Em 30 de setembro, cada participante publicará um vídeo em suas redes sociais abordando um aspecto diferente desse comércio, que envolve a captura dos animais, transporte por longas distâncias, confinamento, abate e exportação de suas peles, principalmente para a China.
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A campanha busca demonstrar que a exploração de jumentos não constitui um sistema de produção sustentável, mas um comércio extrativista que depende do esgotamento catastrófico das populações existentes. Os animais são capturados ou recolhidos em diferentes localidades do Nordeste brasileiro, muitas vezes sem informações confiáveis sobre sua origem, idade, condição de saúde ou histórico sanitário, antes de serem reunidos em fazendas de confinamento e enviados para frigoríficos. Sem reprodução planejada ou reposição do rebanho, o comércio esgota progressivamente as próprias populações das quais depende. Especialistas também apontam as limitações biológicas que tornam impossível uma produção sustentável: os jumentos têm um período de gestação de aproximadamente 12 meses, baixa taxa reprodutiva e desenvolvimento mais lento do que espécies tradicionalmente criadas para produção animal.
Dados compilados por pesquisadores com base em informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Agrostat indicam que a população de jumentos no Brasil caiu 94% entre 1996 e 2024. Isso significa que, para cada 100 animais existentes no país há cerca de três décadas, restam hoje apenas seis. Com o declínio da população de jumentos no Brasil, o país também corre o risco de perder parte de sua diversidade genética e do patrimônio genético dessas populações. À medida que restam menos animais disponíveis para reprodução, características desenvolvidas ao longo de gerações podem desaparecer, comprometendo a conservação e a capacidade de adaptação das populações brasileiras de jumentos.
Comércio de peles — As peles são utilizadas na fabricação do ejiao, produto da medicina tradicional chinesa produzido a partir do colágeno extraído da pele de jumentos. O crescimento da demanda internacional por ejiao levou esse comércio a buscar animais em diferentes países, pressionando as populações locais. Em 2024, os 55 países da União Africana aprovaram uma moratória de 15 anos proibindo o abate de jumentos para o comércio de peles.
Para Janneke Merkx, gerente de Campanhas da organização internacional The Donkey Sanctuary, o que acontece no Brasil faz parte de uma crise global. “Os jumentos sustentam os meios de vida de milhões de pessoas em diversas partes do mundo, mas agora enfrentam uma crise. Milhões de animais são abatidos todos os anos para atender à demanda por ejiao. As populações nacionais despencaram em diversos países, incluindo o Brasil. Precisamos agir antes que seja tarde demais”, afirma.
A pesquisadora Emily Reeves chama atenção para o sofrimento imposto aos animais em todas as etapas do comércio. “Os jumentos sofrem desde o momento em que são capturados, passando pelo transporte e confinamento, até o abate. Muitos ficam sem água ou alimento enquanto aguardam a morte, tudo para que suas peles possam ser retiradas”, afirma.
“Produzir peles em escala suficiente para atender à demanda chinesa é inviável devido às limitações biológicas, como o longo período de gestação e a baixa produtividade. Também não há agregação significativa de valor no Brasil, já que a maior parte dos ganhos econômicos ocorre no exterior”, explica Roberto Arruda de Souza Lima, professor associado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), responsável por um estudo sobre a viabilidade econômica da atividade.
Em contraposição ao abate, pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo uma alternativa capaz de produzir colágeno de jumento sem matar os animais. A proposta utiliza fermentação de precisão, processo no qual a sequência de DNA responsável pela produção de colágeno é inserida em microrganismos, como leveduras.
“É possível utilizar apenas a sequência do DNA do jumento que codifica o colágeno e inseri-la em uma levedura. À medida que o microrganismo se multiplica e produz suas próprias proteínas, ele também passa a produzir colágeno exatamente como é produzido no organismo do animal”, explica Carla Forte Maiolino Molento, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora da pesquisa.
O sistema extrativista também desperta preocupação entre especialistas em saúde animal e Saúde Única (One Health). Essa abordagem reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental. A captura e o transporte de animais sem rastreabilidade ou diagnóstico adequado podem facilitar a circulação de agentes causadores de doenças.
Marcelo Beltrão Molento, professor da UFPR e especialista em parasitologia veterinária, alerta que a ausência de testes expõe tanto os animais quanto os trabalhadores a riscos. “Os animais são capturados sem os cuidados necessários e sem uma avaliação adequada da presença de patógenos. Isso representa um risco tanto para os jumentos, que podem disseminar esses agentes para outros ambientes, quanto para as pessoas que os manipulam. Trabalhadores de frigoríficos entram em contato com sangue, vísceras, secreções e aerossóis potencialmente contaminados”, afirma.
A médica-veterinária Vânia de Fátima Plaza Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, questiona a forma como as normas sanitárias vêm sendo aplicadas. “O que temos visto é a instrumentalização das normas técnicas do Ministério da Agricultura e dos serviços estaduais de defesa sanitária animal para atender a uma demanda questionável. Muitas doenças não estão sendo investigadas, e até mesmo doenças tradicionalmente monitoradas em equídeos estão sendo negligenciadas. Isso cria um cenário de insegurança, tanto em relação às doenças específicas da espécie quanto às zoonoses”, afirma.
Uma das doenças que despertam preocupação é o mormo, doença infecciosa que afeta equídeos e pode ser transmitida aos seres humanos. Segundo especialistas, a falta de informações sobre a origem e a movimentação dos animais impede uma avaliação confiável dos riscos presentes na carne, nas peles e no ambiente de trabalho.
O médico-veterinário e epidemiologista José Roberto Pinho de Andrade Lima também chama atenção para a possibilidade de contaminação por resíduos químicos. Estudos realizados em outros países encontraram metais pesados, como chumbo e arsênio, nos tecidos de jumentos após exposição ao longo da vida a áreas contaminadas, estradas e locais de descarte de resíduos. No entanto, ainda não existem estudos suficientes para determinar a presença e a concentração dessas substâncias nos animais abatidos no Brasil.
“Estamos exportando produtos originados de animais sobre os quais não existem informações sanitárias ou rastreabilidade antes de sua chegada às fazendas de confinamento. Isso envolve riscos microbiológicos, químicos e epidemiológicos que ainda são desconhecidos”, afirma Lima. “Além do potencial impacto sobre os consumidores, existe um risco reputacional significativo para o Brasil, porque o Serviço de Inspeção Federal certifica um produto cuja origem e histórico sanitário são desconhecidos.”
Segundo o pesquisador, a limitada relevância econômica dessas exportações não justifica colocar em risco a credibilidade construída pelo sistema brasileiro de inspeção agropecuária e de alimentos. “O país é reconhecido internacionalmente por seus sistemas de produção e inspeção de alimentos. Não podemos permitir que uma atividade economicamente insignificante comprometa a confiança construída ao longo de décadas por médicos-veterinários, agrônomos, técnicos e cientistas”, acrescenta.
A professora Chiara Albano de Araújo Oliveira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), considera que a participação da comunidade acadêmica é fundamental para melhorar a qualidade do debate público. “A ciência faz diferença quando transforma uma demanda em evidências que podem ser verificadas. Não estamos falando apenas de números, mas de pesquisas capazes de demonstrar a relevância e a urgência dessa questão”, afirma.
A médica-veterinária Bárbara Goloubeff enfatiza a importância histórica e cultural do jumento nordestino. “É necessário proteger esse animal e reconhecer a população desenvolvida no Brasil como parte do patrimônio nacional do país. Os jumentos estão presentes em nossa história há cerca de cinco séculos. Depois de todo esse tempo de adaptação a este território, não podemos continuar tratando-os simplesmente como animais exóticos e descartáveis”, argumenta.
Para Gislane Brandão, coordenadora-geral da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, o abate também prejudica a identidade cultural do Nordeste brasileiro e a relação histórica estabelecida entre esses animais e as comunidades locais. “Esperamos que esse abate chegue ao fim porque proibi-lo é justo, legal e ético — e reflete o que o povo brasileiro deseja, ao reconhecer a importância desse animal”, afirma.
“O valor cultural do jumento é muito maior do que o benefício econômico gerado pelo abate desses animais para abastecer o mercado de peles”, acrescenta Adroaldo Zanella, médico-veterinário, PhD em Bem-Estar Animal pela Universidade de Cambridge e professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).
O advogado Yuri Fernandes Lima, coordenador jurídico da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, destaca que a Justiça Federal na Bahia já reconheceu a incompatibilidade da atividade com a legislação brasileira. Em decisão proferida em 13 de abril de 2026, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia determinou a proibição do abate de jumentos, mulas e bardotos no estado.
“A Justiça acolheu o pedido apresentado em uma ação civil pública. A decisão reconheceu que essa atividade viola a Constituição Federal e a Lei de Crimes Ambientais e, portanto, deve ser proibida”, afirma Lima. A decisão ainda pode ser contestada por meio de recursos, razão pela qual as organizações defendem a aprovação de uma legislação nacional.
Patricia Tatemoto, doutora em Ciências e consultora de Campanhas da The Donkey Sanctuary, afirma que o Congresso precisa agir antes que o declínio populacional se torne irreversível. “No Brasil, existem propostas legislativas capazes de pôr fim a essa atividade. Os tomadores de decisão precisam priorizar a apreciação desses projetos para que a proibição possa ser consolidada”, afirma.
Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2.387/2022, que proibiria o abate de equídeos para produção de carne e a exportação de seus produtos, está pronto para ser incluído na pauta da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania desde 2023. No Senado, o Projeto de Lei 2.613/2026 propõe uma proibição específica do abate de jumentos em todo o território nacional, exceto quando necessário para o controle sanitário de zoonoses ou outras doenças infecciosas.
Com a publicação simultânea dos vídeos em 30 de setembro, os participantes pretendem ampliar o acesso às evidências científicas, jurídicas, econômicas e sanitárias já produzidas sobre o tema. A mobilização também pedirá às autoridades públicas que adotem medidas para proteger os animais remanescentes, promovam alternativas econômicas sustentáveis e impeçam que o Brasil perca uma população adaptada ao Semiárido e profundamente ligada à própria formação histórica e cultural do país.


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