A explosão demográfica que multiplicou a população das favelas em São Paulo nas últimas seis décadas é fruto do crescimento urbano e de decisões estatais que expulsaram os mais pobres de áreas valorizadas. O custo humano desse deslocamento, pouco capturado pelos levantamentos oficiais da época, está presente em obras literárias que evidenciam a formação da periferia brasileira. Uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), que será publicada na Revista Brasileira de História em 18 de setembro, aproxima as Letras, a História e os estudos urbanísticos para mostrar o que essas decisões urbanas significaram, na prática, para quem as viveu.
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Remoção da Favela do Castelo, no Rio de Janeiro, em 1961. Domínio público / Acervo Arquivo Nacional.
Para reconstituir esse processo, os autores de “Favelas brasileiras: trajetórias históricas, três obras literárias (1960-2016)” contrapuseram a literatura periférica às fontes históricas e aos dados demográficos disponíveis, usando relatos em primeira pessoa como registro do que censos e mapeamentos da época não captavam.
A análise se debruça sobre três livros: “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, diário publicado em 1960 sobre a favela do Canindé, em São Paulo; “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo, ambientado em uma favela em processo de remoção, lido pela crítica a partir da experiência da autora em Belo Horizonte nos anos 1970; e “Flores de Alvenaria”, de Sérgio Vaz, sobre a periferia paulistana contemporânea.
Os pesquisadores utilizaram a literatura como ferramenta de documentação sociológica. Ao analisar os textos sob essa ótica, o estudo identificou consequências da remoção de favelas que os mapas e censos da época não captavam — como o rompimento de laços de vizinhança e de redes de apoio comunitário.
“O ponto cego não é exatamente a falta de dados, mas aquilo que os dados dificilmente conseguem registrar. A literatura mostra como determinadas decisões urbanas são vividas por quem está do outro lado delas”, afirma Manoela Massuchetto Jazar, professora da PUCPR e uma das autoras do estudo.
O percurso analítico extraído dos livros identifica três momentos da produção das periferias brasileiras, que se acumulam em vez de se sucederem. A primeira leitura destaca a luta imediata pela sobrevivência nos espaços negligenciados da cidade. Na sequência, a literatura expõe o trauma das remoções e o apagamento de memórias impostos por retroescavadeiras e lógicas higienistas.
Nas obras mais recentes, ganha relevo a afirmação política e o orgulho territorial: a produção cultural das periferias, que sempre existiu, passa a circular com mais força e a se organizar coletivamente, sem que a precariedade e as remoções tenham cessado. Para refletir essa trajetória documentada pelos moradores, os pesquisadores propõem compreender essas áreas como “cidades incipientes”.
“Adotamos a palavra incipiente em um sentido deliberadamente otimista. São partes da cidade ainda em processo de consolidação, urbanização e integração ao restante do tecido urbano. Propusemos uma perspectiva que tenta deixar de compreendê-las apenas pela falta, pela irregularidade ou pelo desvio em relação a um modelo considerado ideal”, explica Jazar.
Essa mudança de vocabulário tem aplicação direta no desenho de políticas públicas. Projetar moradias populares sem considerar a dinâmica comunitária da favela tende a produzir unidades habitacionais que não dialogam com a vivência de quem vai ocupá-las.
“A literatura ajuda justamente a perceber o que uma política habitacional muitas vezes não consegue enxergar, que nesses territórios existem vínculos, solidariedades, formas de organização e modos de construir a vida cotidiana que não podem simplesmente ser desfeitos e substituídos por uma unidade habitacional em outro lugar”, destaca a pesquisadora.
Integrar memória afetiva e redes de apoio ao planejamento urbano exige tratar os moradores como sujeitos de direito, não como ocupantes provisórios. As próximas gerações de habitação popular precisarão partir dos vínculos e das formas de organização que esses territórios já produziram — os mesmos que os registros oficiais não conseguiram apagar.


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