Mapeamento participativo revela como natureza sustenta modos de vida em comunidade pesqueira da Amazônia

Pescador em Jubim, Marajó (PA). A pesquisa define Jubim como maretório: a comunidade tem sua organização social e econômica influenciada pelo encontro entre rio, mar, igarapés, florestas e manguezais

O encontro entre rio, terra e mar torna o arquipélago do Marajó, no Pará, um ambiente com biodiversidade única. De 2022 a 2025, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em coautoria com moradores da vila pesqueira de Jubim, mapearam a relação da comunidade com a natureza em um contexto de expansão regional de grandes empreendimentos como portos, ferrovias e prospecção de petróleo. Os resultados, publicados na revista People and Nature na quinta (10), mostram que o vínculo com o território passa não somente pelo uso material da natureza. A vida comunitária se estrutura a partir de atividades como coleta de frutas como o açaí, pesca artesanal e produção da farinha de mandioca, e essas práticas contribuem para a formação da identidade local, fortalecendo simultaneamente subsistência, cultura, trabalho e espiritualidade dos moradores.

A primeira etapa da coleta de dados ocorreu a partir de dois workshops com moradores de diferentes idades e papeis sociais. Inicialmente, os participantes identificaram áreas prioritárias de interação entre as comunidades e a natureza — como zonas de caça, pesca, agricultura e pontos de conflitos socioambientais. Em um segundo encontro, 32 integrantes da comunidade identificaram valores culturais e simbólicos com o uso de recursos como fotografias e com o redesenho dos mapas convencionais para representar lugares significativos. As informações foram complementadas com sete entrevistas com moradores considerados especialistas no conhecimento sobre fauna e flora locais, além de quatro excursões da equipe de pesquisadores ao território para documentar as interações relatadas.

Anúncios

Os moradores identificaram 73 espécies locais — 51 de plantas e 22 de animais — associadas a práticas como alimentação, medicina, construção e carpintaria, artesanato e biojoias, itens para pesca e cosméticos. Lara Sartorio, pesquisadora da Unifesp e autora líder do estudo, explica que o levantamento revela a amplitude da sociobiodiversidade conhecida pelos moradores. “Nesse sentido, as 73 espécies são expressivas na medida em que registram a forma com que a comunidade existe em relação com a natureza”, aponta. O trabalho também resultou no georreferenciamento de 65 locais de pesca, coleta, circulação e usos culturais e simbólicos.

A pesquisa compreende Jubim como um maretório, conceito baseado na união dos termos “mar” e “território”. A localidade de pouco mais de dois mil habitantes tem sua organização social e econômica influenciada pelo encontro entre rio, mar, igarapés, florestas, manguezais e comunidades humanas. Para Sartorio, o conceito de maretório vai além de uma categoria acadêmica e pode funcionar como uma ferramenta de reconhecimento e reivindicação territorial. “Isso pode ter uma dimensão política muito concreta. Quando uma praia, um igarapé ou uma área de pesca é compreendida apenas como uma parcela isolada de terra ou como um espaço disponível para apropriação privada ou para um grande empreendimento, uma parte importante das relações sociais e ecológicas que sustentam a vida comunitária desaparece da análise”, analisa a pesquisadora.

Anúncios

“Nossa comunidade não é só um espaço onde as pessoas moram; é um ecossistema vivo. Jubim vive da natureza: da pesca, da catação de mariscos, do extrativismo, das frutas, da agricultura, da produção de farinha, do artesanato. Existe uma ligação muito profunda entre a natureza e a gente, um verdadeiro ‘maretório’, onde a vida em terra e a vida nas águas se misturam o tempo todo”, descreve Jezimara da Silva Vinhas, moradora de Jubim, graduanda em Ciências Biológicas pela UFPA e coautora do artigo. “Viver aqui é entender, no dia a dia, que a natureza não é algo separado da gente: nós somos parte dela”, complementa.

Após o levantamento de dados, os pesquisadores realizaram um workshop de validação com a comunidade. Sartorio ressalta que essa etapa faz parte do processo metodológico, indo além da entrega dos resultados de uma pesquisa finalizada. “Os mapas funcionaram como objetos de conversa, memória e correção. Os moradores identificaram lugares, acrescentaram informações, corrigiram localizações e recuperaram histórias e usos associados a diferentes pontos do território”, frisa a pesquisadora.

Anúncios

Vinhas, que que atuou no comitê de mobilização do projeto e participou do mapeamento, relata o incômodo diante de experiências com a chamada ‘pesquisa extrativa’, que retira o conhecimento da comunidade sem beneficiá-la. Para ela, a ciência tem papel ativo no fortalecimento da autonomia na proteção do território. “Defendo as metodologias participativas e me arrisco a dizer que esse é o melhor jeito de fazer ciência dentro das comunidades tradicionais”, observa.

A pesquisa revela que mapeamentos participativos podem aprofundar o conhecimento sobre as relações entre comunidades e natureza, incorporando saberes locais à gestão dos territórios. “Nesse sentido, a experiência de Jubim também está alimentando novas pesquisas sobre territorialidades aquáticas e mudanças climáticas em outros territórios costeiros. O objetivo é ampliar o diálogo entre diferentes comunidades e, sobretudo, compreender como seus próprios conhecimentos e categorias podem contribuir para pensar alternativas de governança diante das transformações climáticas e das pressões sobre os territórios”, finaliza Sartorio.

Leia outras notícias em cubo.jor.br. Siga o Cubo no BlueSky, Instagram e Threads, também curta nossa página no Facebook e se inscreva em nossos canais, do Telegram e do Youtube. Envie informações e denúncias através do nosso e-mail.

Deixe uma resposta

Anúncios
Anúncios
Image of a golden megaphone on an orange background with the text 'Anuncie Aqui' and a Whatsapp contact number.
Anúncios

Descubra mais sobre Cubo

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre Cubo

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo