Onça-parda mantém equilíbrio da biodiversidade mesmo em paisagem dominada por cana-de-açúcar, aponta estudo

A onça-parda consegue viver em paisagens agrícolas quando há fragmentos de vegetação nativa preservados

A presença contínua da onça-parda em uma paisagem composta majoritariamente por plantações de cana-de-açúcar demonstra que o predador continua exercendo um papel potencialmente essencial na manutenção da biodiversidade. Essa é a principal conclusão de um estudo realizado em Iracemápolis, São Paulo, que registrou a presença da espécie durante todos os meses do ano, inclusive no período de colheita da cana, comprovando que ela é residente na região.

A pesquisa, publicada na Revista do Instituto Florestal, identificou 22 outras espécies de vertebrados, além da onça-parda (23 no total), observou que os mesopredadores evitam áreas mais frequentadas pela onça-parda e confirmou a reprodução do felino no município, evidenciando que os remanescentes de vegetação ainda conseguem sustentar populações da espécie.

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“Queríamos entender como a onça-parda, importante predador de topo responsável por manter o equilíbrio entre as espécies, conseguia sobreviver em uma paisagem dominada pela cana-de-açúcar e qual sua influência sobre a fauna local. Para isso, mapeamos pegadas e fezes, analisamos 43 amostras fecais e utilizamos armadilhas fotográficas e busca ativa de pegadas ao longo de cerca de dois anos de campo (julho de 2023 a julho de 2025), registrando 59 ocorrências combinadas da espécie e diversas outras espécies de mamíferos na região”, explica Eleonore Zulnara Freire Setz, professora livre-docente do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Comportamento de Mamíferos (LAMA).

Um dos resultados que mais chamou a atenção foi a confirmação de que a espécie utiliza a região durante o ano inteiro, sem diferenças significativas entre os períodos de safra e entressafra da cana. “Isso mostra que a onça é residente em Iracemápolis. A recuperação de matas ciliares e de áreas naturais ao redor de represas tem sido suficiente para permitir sua permanência, mas ainda é fundamental ampliar essas áreas e evitar novos desmatamentos para garantir sua conservação e a manutenção da biodiversidade”, afirma Setz.

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O trabalho também revelou que a paisagem agrícola não é totalmente homogênea. Pequenos fragmentos de vegetação nativa, brejos, matas de galeria e áreas de Cerrado aumentam a diversidade ambiental e favorecem a permanência da fauna silvestre.

“Iracemápolis possui uma extensa área ocupada pela cana-de-açúcar, mas a vegetação nativa remanescente cria uma heterogeneidade essencial para espécies como lobo-guará, tamanduá-bandeira, veado-campeiro e também para a onça-parda. A presença desse predador acaba protegendo indiretamente várias outras espécies, funcionando como uma espécie-chave e também como uma espécie guarda-chuva”, destaca Camila Menezes Siqueira, autora principal da pesquisa.

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Outro achado relevante foi a composição da dieta da onça-parda. As análises indicaram predominância de pequenos roedores, sugerindo escassez de presas de maior porte na região. “A abundância de pequenos roedores mostra uma adaptação às condições locais, mas também evidencia uma limitação de recursos alimentares. A onça consegue sobreviver, porém isso não significa que o ambiente ofereça condições ideais para sua permanência no longo prazo”, observa Siqueira.

Segundo as pesquisadoras, outro diferencial do estudo é demonstrar que grandes predadores continuam exercendo funções ecológicas relevantes fora de unidades de conservação, desde que existam fragmentos florestais capazes de sustentar suas populações. Além disso, os resultados foram publicados em português, ampliando o acesso de gestores públicos, pesquisadores e profissionais envolvidos com conservação e restauração ambiental.

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Além disso, os dados ainda reforçam a necessidade de preservar áreas de vegetação natural e investir na recuperação de corredores ecológicos, matas ciliares, nascentes e fragmentos de Cerrado, fundamentais tanto para a manutenção da biodiversidade quanto para a produção de água.

Como próximos passos, as pesquisadoras pretendem ampliar o monitoramento da população de onças-pardas, avaliar a disponibilidade de presas de maior porte e acompanhar os efeitos da conservação e da restauração da vegetação sobre a fauna da região. As autoras também defendem a atualização de estudos que orientem a criação de corredores ecológicos e a conexão entre áreas naturais em paisagens agrícolas.

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