André Julião | Agência FAPESP – Pesquisadores paulistas testaram com sucesso uma possível nova arma de combate ao coral-sol, uma espécie invasora que ameaça a biodiversidade marinha em diversos pontos da costa brasileira. Armados com um jato de ar comprimido, eles removeram o tecido vivo de colônias de coral-sol no arquipélago de Alcatrazes, uma área protegida no litoral norte de São Paulo, e observaram que os organismos não se regeneraram, ao contrário do que pode acontecer no método convencional de remoção mecânica, utilizando marreta e talhadeira.
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Os resultados indicam que o jateamento pode ser uma alternativa mais prática e eficaz para o manejo do coral-sol, segundo os cientistas, com o objetivo de conter a disseminação da espécie em áreas prioritárias de conservação no litoral brasileiro. O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e realizado com apoio da FAPESP, foi publicado em abril na revista Ecological Solutions and Evidence.
Entre as vantagens do novo método, segundo os autores, estão a possibilidade de remoção mesmo em locais de difícil acesso e a eliminação de tecidos vivos que possam se regenerar. Os dois problemas são comuns no método convencional de remoção física, em que mergulhadores utilizam marreta e talhadeira (ou martelete pneumático) para destacar as colônias de coral-sol do substrato marinho ao qual elas estão aderidas – costões rochosos, principalmente, no caso de Alcatrazes.
No caso do jateamento, uma pistola de jato é acoplada a um cilindro de ar comprimido, igual ao que os mergulhadores usam para respirar debaixo d’água. O mergulhador segura o cilindro sob um braço e aciona a pistola, bem próxima às colônias, com a outra mão. O jato de ar comprimido remove o tecido mole do coral, deixando apenas o seu esqueleto poroso no lugar.
“Nossos experimentos mostraram a eficácia do método numa comunidade desses corais. Ao remover o tecido, o nosso método lida com pelo menos duas fragilidades de outros: não promove a fragmentação da colônia e, portanto, evita a sua propagação involuntária. Além disso, elimina a necessidade de descartar a colônia removida. O esqueleto sem o tecido se mantém no ambiente e é rapidamente colonizado por espécies nativas do local”, afirma Gustavo Piazzaroli, primeiro autor do estudo, realizado como parte de uma iniciação científica com bolsa da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp, em Santos.
A ideia de usar ar comprimido ocorreu quase por acaso ao coordenador do estudo, Guilherme Pereira-Filho, professor do IMar-Unifesp, durante mergulhos no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, unidade de conservação marinha no litoral paulista, gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que há mais de dez anos vem utilizando o método de remoção física para combater a disseminação do coral-sol em seus ecossistemas. Há duas espécies de coral-sol invasoras: Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccinea ; ambas originárias do Indo-Pacífico e introduzidas por atividades humanas no Caribe e na costa brasileira.
“Os corais-sol ocorrem mais em rochas com orientação negativa, como fendas, tocas e grutas, difíceis de serem acessadas pela remoção física. Observamos que em alguns locais, onde mergulhadores passavam e deixavam bolhas de ar aprisionadas sob rochas submersas, as colônias branqueavam. Pensei se não seriam as bolhas de ar exaladas por nós que estariam causando esse efeito, e se algum método que envolvesse ar não seria uma possibilidade de remoção”, lembra Pereira-Filho, que atualmente coordena três projetos apoiados pela FAPESP, um deles no âmbito do Programa BIOTA (25/25595-4, além de 24/18865-2 e 25/12843-0). Pesquisadores do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da Universidade de São Paulo (USP) também participaram do trabalho.
“Na remoção física, algum tecido pode ficar na rocha e se regenerar. Além disso, ainda que ele seja totalmente extraído, as colônias removidas têm de ser levadas para fora da água salgada, tratadas com água doce para matar o coral e só então o esqueleto pode ser devolvido para o mar, a fim de que o carbonato de cálcio que o compõe possa ser utilizado em outros processos naturais”, explica Piazzaroli.
Caso fiquem expostas à água do mar, as colônias extraídas podem liberar células reprodutivas como resposta ao estresse causado pela remoção (leia mais em: agencia.fapesp.br/50748). O mergulhador que faz a remoção física, portanto, precisa carregar as colônias num saco ou recipiente fechado enquanto realiza o trabalho, o que não é necessário no caso do jateamento, porque o método destrói o tecido do coral de imediato. Além disso, no caso da remoção física, qualquer fragmento de tecido que permaneça preso ao substrato pode dar origem a uma nova colônia, em função da grande capacidade de regeneração do coral-sol. Esse risco também é bastante reduzido com o jateamento, segundo os autores do trabalho.
Os pesquisadores ressaltam que se trata de um método experimental, ainda. A técnica, por enquanto, só foi testada em algumas dezenas de colônias de coral-sol, numa área restrita do arquipélago, enquanto as invasões podem se estender por grandes áreas, envolvendo milhares de colônias.

Esqueleto de coral-sol logo após tratamento com ar comprimido (à esq.), depois de 30 dias (centro) e 180 dias (à dir.), quando já está colonizado por algas (foto: LabecMar/Unifesp)
Experimento
Ao ouvir o insight do orientador, Piazzaroli foi pesquisar a literatura científica sobre o assunto e encontrou referências ao uso de jateamento de ar comprimido para separar tecido mole do esqueleto de corais apenas em experimentos de laboratório – não na natureza.
“Eram estudos sobre estresse oxidativo e utilizavam aquele jato de ar e água usado por dentistas, conhecido como ‘water pik’. Não havia nada publicado sobre manejo de corais invasores por esse método”, conta o estudante de biologia e mergulhador, que desde a adolescência participa como voluntário de ações de remoção de coral-sol em Ilha Grande (RJ), onde vive seu pai.
Os pesquisadores adaptaram a técnica para uso com cilindros de mergulho e testaram o novo método em 48 colônias de coral-sol no arquipélago de Alcatrazes, e deixaram outras 14 sem tratamento, como forma de controle. As colônias eram analisadas logo após o jateamento, depois de 30 dias e, finalmente, depois de 180 dias. A área ocupada era medida e o número de colônias contado a cada nova visita.
Resultado: na área onde não houve remoção, a área coberta por colônias de coral-sol aumentou, enquanto na área tratada com ar comprimido, ela diminuiu. Já o número de colônias aumentou em ambos os casos, mas muito menos na área onde foi realizado o jateamento. Os esqueletos das colônias jateadas foram rapidamente colonizados por algas, num prazo de 30 dias, dificultando a recolonização ou regeneração dos corais invasores.
No laboratório
Era preciso saber, porém, se o tecido removido do esqueleto pelo jato de ar poderia recolonizar os esqueletos ou se regenerar, dando origem a novas colônias em outros lugares. Os pesquisadores, então, realizaram experimentos em aquários por nove dias, tempo mais do que suficiente para o tecido se regenerar ou morrer.

Colônia de coral-sol: metade (à esq.) não recebeu jateamento de ar comprimido, enquanto a da direita passou pelo procedimento. Método remove tecido vivo, deixando apenas esqueleto (foto: Gustavo Piazzaroli/LabecMar-Unifesp)
Em um dos tratamentos, um esqueleto que passou pelo jateamento foi fervido, a fim de eliminar qualquer possibilidade de conter tecido vivo ou células reprodutivas. Foi então depositado num aquário com água do local onde foi feita a remoção (ou seja, possivelmente contendo células de coral-sol em suspensão) e observado pelos nove dias seguintes. Não houve recolonização do esqueleto.
Em outro tratamento, além do esqueleto com água do mesmo local, foram depositados pedaços do tecido de coral-sol removido por ar comprimido. Após nove dias, quando o mau cheiro indicava que o tecido estava morto, constatou-se que também não houve recolonização do esqueleto.
Cada tratamento foi replicado quatro vezes. Análises de amostras da água com microscópio não encontraram células reprodutivas nem tecidos vivos, exceto por uma das réplicas, que teve um pedaço de tecido vivo encontrado no primeiro dia e uma única célula reprodutiva, no último.
“Os resultados são bastante promissores para aplicarmos o método numa área maior e obter uma validação ainda mais robusta”, comemora Pereira-Filho. Ele ressalta, porém, que ainda é necessário desenvolver soluções capazes de escalonar o método para aplicação em grandes áreas, já que o jateamento esgota o ar comprimido dos cilindros rapidamente. O grupo atualmente conversa com gestores de outra área de proteção marinha para realizar um novo estudo em escala ampliada.
O artigo A new method to control the invasive sun corals (Tubastraea spp.): Underwater compressed-air blasting pode ser lido em: besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2688-8319.70243.


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