Mesada condicionada a tarefas domésticas prejudica educação financeira de jovens, aponta estudo da PUCRS

Pesquisa com mais de 38 mil adolescentes de 19 países revela que recompensar arrumação do quarto ou bom comportamento pode ter efeito contrário ao esperado, especialmente entre meninas

A primeira experiência do jovem com o próprio dinheiro costuma vir em forma de mesada. Muitos pais a utilizam para estimular boas notas, recompensar tarefas cumpridas ou garantir que o quarto permaneça arrumado. O que parece uma lição prática de responsabilidade financeira pode, no entanto, estar sabotando o futuro dos filhos. É o que aponta um novo estudo brasileiro publicado na revista Estudos Econômicos (São Paulo), conduzido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

A pesquisa analisou dados de 38.236 jovens de 15 anos que participaram do Pisa 2018, exame internacional aplicado em 19 países. Os pesquisadores mediram o impacto de dois tipos de mesada: a recebida como presente, sem amarras, e aquela condicionada a obrigações domésticas. O resultado mostrou que o conhecimento financeiro cresce quando o dinheiro é dado livremente. Já quando a mesada vira pagamento por tarefas, a pontuação dos jovens nos testes de alfabetização financeira cai.

A diferença é ainda mais acentuada entre as meninas. Segundo a tabela 1 do estudo, garotas que recebem mesada condicionada obtêm média de 481,81 pontos em alfabetização financeira. O número é inferior tanto aos 490,05 pontos registrados pelos meninos no mesmo grupo quanto aos 519,76 pontos alcançados pelas meninas que recebem mesada não condicionada.

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A autora principal do estudo, Ivana Strapazzon, aponta um dos possíveis motivos para a disparidade: a divisão do tempo no ambiente doméstico. Segundo ela, muitas meninas já se dedicam a ocupações não remuneradas dentro de casa, como cuidar de irmãos mais novos ou arrumar a casa. A mesada condicionada a essas tarefas reduz ainda mais o tempo disponível para os estudos e amplia a pressão sobre as jovens, além de conferir um caráter punitivo à prática.

O estudo também indica que a comunicação familiar sobre dinheiro continua sendo um território majoritariamente masculino. Meninos recebem mais tempo de qualidade dos pais para discutir finanças e apresentam níveis mais altos de confiança digital. As meninas, por sua vez, ficam presas a uma rotina doméstica que as afasta dos livros e da construção de autonomia financeira.

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Para Ivana, a mesada deveria funcionar mais como um reconhecimento do que como um salário doméstico. Em suas palavras, seria um prêmio dado pelas famílias para o esforço individual do estudante nos estudos.

Os próprios autores do estudo fazem ressalvas. Embora os resultados sejam consistentes na maior parte dos modelos estatísticos testados, não é possível afirmar plena causalidade. Há especificações em que os efeitos não se mostram significativos, e a base de dados não permite saber por quanto tempo cada estudante recebe mesada nem se ela é uma recompensa por desempenho prévio. Os achados apontam para uma associação robusta, não para uma relação determinística.

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A formação de adultos financeiramente alfabetizados exige mudanças dentro de casa. Os pesquisadores sugerem que os pais privilegiem o diálogo e usem a mesada como ferramenta de autonomia. O foco deve estar em metas de poupança e na liberdade de escolha do jovem, sem transformar a colaboração doméstica em uma jornada de trabalho competitiva.

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