📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
Há algo de profundamente sintomático na reação de certos setores conservadores ao desfile da Acadêmicos de Niterói. Ao verem uma fantasia que trazia latas de conserva abertas com o rótulo de “família tradicional” sob um arco-íris, a resposta foi imediata e visceral: “zombaram dos evangélicos”. Antes de qualquer análise mais aprofundada, é preciso parar e refletir sobre o que esse grito revela.
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Onde, afinal, estava a afronta religiosa? Em que momento cruzes foram profanadas ou Bíblias queimadas? A crítica, para quem se dá ao trabalho de interpretar para além do título da manchete ou do corte de 15 segundos no celular, era clara e direcionada ao campo da política, não da fé. A lata de conserva é um símbolo poderoso: um invólucro atraente, que promete durabilidade e pureza, mas cujo conteúdo, muitas vezes, é processado, carregado de conservantes que, a longo prazo, intoxicam.
E o que se “conserva” dentro dessas latas vendidas como “família tradicional brasileira”? Conserva-se o ódio travestido de moralidade. Conserva-se o preconceito contra quem ama de forma diferente. Conserva-se a fake news como ferramenta de manipulação. Conserva-se o pânico moral para desviar o foco da falta de políticas públicas efetivas. A fantasia não atacava a crença de ninguém; atacava o uso político dessa crença como embalagem para uma pauta que é, em sua essência, tóxica para a democracia.
O detalhamento da ala escancara ainda mais o alvo. As mãos fazendo o sinal de “arminha”, os narizes de Pinóquio, os bonés que remetem ao trumpismo (e, por extensão, ao bolsonarismo) não deixam margem para dúvidas. A crítica era ao modus operandi de uma direita que se alimenta da desinformação, da truculência e da nostalgia autoritária. Era uma sátira política ao “gabinete do ódio”, não uma perseguição religiosa ao irmão da igreja ao lado.
O que nos leva ao cerne da questão: a gritaria dos que se sentiram ofendidos é, na verdade, o grito de quem se viu no espelho. A arte, especialmente uma arte tão popular e visceral como o Carnaval, tem a função histórica de incomodar, de provocar e de expor as contradições que a sociedade tenta varrer para debaixo do tapete.
Quando um pastor ou um político sobe em um púlpito ou numa tribuna para dizer que está sendo perseguido por uma fantasia de lata, ele não está defendendo a sua fé. Ele está, deliberadamente, confundindo os rebanhos e os eleitores para desviar a atenção do verdadeiro alvo da crítica: a sua própria prática política. É a velha tática de se vitimizar para não ter que responder pelos atos, de lacrar a boca da crítica chamando-a de “ataque à liberdade religiosa”.
O problema, portanto, não é de interpretação de texto, como muitos brincam nas redes sociais. O problema é de má-fé. Segue-se o líder cegamente, repete-se o bordão “isso é perseguição a nós, cristãos”, num efeito manada que empobrece o debate e sequestra o verdadeiro significado dos símbolos.
O Carnaval passou, as fantasias serão guardadas, mas o recado fica. A “família tradicional” que muitos defendem não é a que está na Bíblia, mas sim a que está estampada na lata: um produto ideológico, fabricado para conservar privilégios e perpetuar exclusões. E quem se sentiu ofendido não foi atingido por uma zoeira de carnaval, mas pela própria imagem que teima em projetar. O resto é fingimento.


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