Enquanto o Brasil se enfeita com flores e promessas de amor materno, uma verdade incômoda se ergue nas prateleiras de supermercados ocupados: para milhares de mães, o Dia das Mães é uma data marcada não pelo afeto, mas pela revolta. A escala de trabalho 6×1 — que consome seis dias da semana em troca de um único dia de folga — e o preço abusivo dos alimentos transformaram a vida dessas mulheres em uma equação perversa: trabalhar para comer, mas não ter tempo para viver.
Neste sábado (10/5), o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) ocupou um supermercado na Avenida Francisco Sales, em Belo Horizonte, em um protesto que ecoou em várias regiões do país. Cerca de 200 manifestantes na capital mineira e mais de 2 mil famílias em outros estados tomaram as seções de alimentos de uma grande rede varejista para exigir o fim da escala 6×1 e denunciar o custo de vida insuportável. É um grito de quem sabe que, sem pressão coletiva, o prato vazio e a jornada exaustiva serão eternizados como destino.
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A escala 6×1 é uma violência planejada. Para as mães trabalhadoras, significa que o único dia de folga não é dedicado a abraçar os filhos, mas a correr contra o relógio: pagar contas, enfrentar filas em mercados públicos, lavar uniformes escolares e tentar esticar um salário que não chega ao fim do mês. Enquanto o discurso empresarial fala em “produtividade”, essas mulheres vivem a realidade de uma produtividade que as esvazia.
Manoel Vieira, coordenador nacional do MLB, não poupa críticas: “Estamos aqui para denunciar que essas empresas garantem seus lucros com a exploração do povo. Todo dia, funcionários e clientes choram ao ver o preço do arroz, do feijão, do café, do ovo. E sem saber se vão pagar a conta de água, de luz, o aluguel ou se vão comer”. A fala revela o cerne do problema: a mesma mão que sustenta o lucro das redes de supermercado é a que segura a caneta para riscar itens da lista de compras, pois o salário não basta.
A escolha de ocupar supermercados não é casual. São nesses espaços — onde alimentos são transformados em mercadorias caras — que a contradição do sistema salta aos olhos. De um lado, prateleiras abarrotadas; de outro, mães que não podem comprar o básico. A ocupação é um ato político que inverte a lógica: em vez de clientes, são trabalhadoras que apontam o dedo para quem lucra enquanto elas passam fome.
O protesto expõe a hipocrisia de um modelo que celebra o “empreendedorismo”, mas nega direitos a quem realmente move a economia: as trabalhadoras que descarregam caminhões, organizam gondolas e operam caixas registradoras. A escala 6×1, nesse contexto, é a expressão máxima de um sistema que trata seres humanos como engrenagens descartáveis.
Quando o afeto vira luta
Para as mães pobres, a ausência não é uma escolha — é uma imposição. A escala 6×1 as condena a ver seus filhos crescerem por fotos ou por breves minutos antes do sono. O protesto do MLB, portanto, não é apenas por melhores condições de trabalho, mas pelo direito de existir como mãe.
Não se trata de um drama individual, mas de uma crise coletiva. Nas periferias, favelas e bairros pobres, a maioria das famílias é sustentada por mulheres. São elas que, mesmo exaustas, seguem administrando a falta — de tempo, de dinheiro, de dignidade. A ocupação dos supermercados é, assim, um ato de rebeldia contra a invisibilidade:
Silêncio e Conivência
Enquanto as trabalhadoras ocupam supermercados, o Estado brasileiro segue ausente. A reforma trabalhista de 2017, que flexibilizou direitos, aprofundou a precariedade — e a escala 6×1 é filha dileta desse projeto.
O MLB, ao levar a luta para as redes varejistas, desafia um pacto de poder que normaliza a exploração. Se o governo não regula preços, não fiscaliza jornadas e não protege as mães trabalhadoras, a ocupação torna-se um tribunal popular.
Neste 10 de maio, as mães do MLB escreveram uma carta aberta com seus corpos. Não uma carta de amor, mas de denúncia. Elas lembram que, em um país onde 40% dos lares são chefiados por mulheres, ignorar sua luta é ignorar o futuro de milhões de crianças.
O verdadeiro presente para essas mães não é um buqué de rosas, mas a garantia de que nenhuma mulher precisará trabalhar seis dias seguidos para comprar um quilo de feijão. Não é um chocolate, mas a certeza de que o dia de folga será para brincar, não para desesperar.
A escala 6×1 e a fome não são acidentes: são projetos políticos. Combatê-las exige mais do que discursos — exige coragem para enfrentar quem lucra com a dor das trabalhadoras. Enquanto houver mães ocupando supermercados, haverá esperança de que um outro Dia das Mães é possível: sem fome, sem exploração, e com tempo para amar.
Feliz Dia das Mães!
📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
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