📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
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Há algo profundamente perturbador na imagem de uma viatura policial sendo usada não para proteger a população, mas para encobrir um esquema criminoso. A Operação Dupla Face, conduzida pelo Ministério Público do Ceará com apoio de forças de segurança do Maranhão, descortina uma realidade que muitos preferem ignorar: o Estado pode, ele mesmo, tornar-se um instrumento de violação da lei.
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Segundo as investigações, três policiais e um informante do sistema prisional teriam comprado drogas com o auxílio de um integrante do crime organizado para, em seguida, simular apreensões legítimas. As operações, entretanto, nunca eram registradas oficialmente. A farda servia de disfarce. A viatura, de cenário. E o Estado, de cúmplice involuntário de quem deveria combater.
Episódios como esse revelam os efeitos de uma política de segurança pública que, ao longo de décadas, privilegiou o endurecimento punitivo em detrimento de mecanismos reais de controle interno e responsabilização institucional. Quando não há fiscalização efetiva, quando ouvidorias são esvaziadas e corregedorias operam em silêncio, o que se cria é um ambiente fértil para que a autoridade se converta em impunidade.
Os itens encontrados em Capinzal do Norte durante o cumprimento dos mandados reforçam essa leitura. Um drone, um bloqueador de sinal de GPS e armamento configuram uma estrutura que vai além de um desvio individual de conduta. Sugerem organização, planejamento e, possivelmente, uma rede de conivência que ainda está por ser desvendada.
A luta por uma segurança pública democrática passa necessariamente por reconhecer que farda não é sinônimo de integridade. O trabalhador brasileiro que é abordado nas ruas, o jovem periférico que cresce desconfiando do estado, o morador do Maranhão que vê de longe as investigações em curso no Ceará: todos eles têm o direito de exigir que quem porta uma arma em nome do povo também responda por seus atos em nome do povo.
Que a Operação Dupla Face seja, ao menos, um sinal de que o Ministério Público ainda tem disposição para olhar para dentro das estruturas do Estado. E que a Justiça, desta vez, não pise no freio.


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