Quando alguém ente querido morre, os adultos precisam lidar com a própria tristeza e, muitas vezes, com uma tarefa igualmente delicada: explicar a perda a uma criança. É comum que, na tentativa de protegê-la, a família recorra a frases como “a vovó virou uma estrelinha”, “o papai foi morar no céu” ou “ele está dormindo”. O que parece uma maneira carinhosa de amenizar a dor, porém, pode deixar a criança ainda mais confusa sobre o que aconteceu. Afinal, se a pessoa foi embora, ela pode voltar? Se está dormindo, por que não acorda? E se foi para outro lugar, por que não podemos visitá-la? Essas dúvidas, que podem aparecer na cabeça das crianças após ouvir determinadas explicações, mostram como as informações podem ser interpretadas de maneira errada pelas crianças, ainda mais próximo ao Dia de Finados, data que relembra e homenageia com saudade as pessoas que nos deixaram.
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Judson Alves, psicólogo e coordenador do curso de Psicologia do UniFacimp Wyden, explica que a compreensão da morte se desenvolve gradualmente durante a infância. Conceitos como a irreversibilidade, ou seja, entender que quem morreu não voltará à vida, e a universalidade, que significa reconhecer que todos os seres vivos morrem, podem ser difíceis de compreender, especialmente para os mais novos.
Por isso, a orientação é conversar com clareza, utilizando palavras simples e adequadas à idade. Em vez de recorrer apenas a metáforas, o adulto pode explicar que a pessoa morreu, que seu corpo parou de funcionar e que ela não poderá mais estar presente como antes. “A explicação não precisa ser longa nem oferecer respostas para todas as dúvidas de uma só vez. O importante é permitir que a criança pergunte, manifeste seus sentimentos e receba informações que consiga compreender”, orienta o psicólogo.
Isso não significa que a família precise abandonar suas crenças religiosas ou espirituais. Elas podem e até devem fazer parte da conversa, desde que não substituam completamente a explicação concreta sobre a morte. “Dizer que alguém está no céu, por exemplo, pode ser uma forma de expressar a fé familiar, mas a criança também precisa entender que aquela pessoa não voltará para casa”, reforça.
APOIO NA FICÇÃO
Livros, desenhos e filmes podem ajudar a introduzir um assunto que nem sempre é fácil de abordar diretamente. Judson cita duas animações conhecidas por tratar da morte e das relações familiares: os filmes O Rei Leão (1994) e Viva – A Vida é uma Festa (2017).
Em O Rei Leão, a perda do pai é um acontecimento decisivo na trajetória do protagonista, que precisa lidar com a ausência e com sentimentos difíceis. Já Viva – A Vida é uma Festa aborda a memória dos familiares que morreram e a maneira como suas histórias continuam presentes na vida de quem ficou. “Essas narrativas podem ajudar a criança a compreender que a morte faz parte da vida, que a ausência é definitiva e que lembrar de alguém querido também pode ser uma maneira de preservar os vínculos afetivos”, analisa.
O psicólogo ressalta, porém, que o uso dessas histórias deve ser acompanhado por um adulto. “Conversar sobre as cenas, ouvir as perguntas e acolher as reações da criança são atitudes importantes para que a experiência não se limite ao que aparece na tela”, explica.
Criança pode ir ao velório?
Outra dúvida frequente é se as crianças devem participar de velórios e enterros. Para algumas famílias, a primeira reação é afastá-las completamente desses momentos, acreditando que assim estarão protegidas da tristeza. Judson explica que impedir a participação nem sempre é a melhor alternativa. Os rituais de despedida também podem ajudar a criança a compreender o que aconteceu e perceber que a tristeza pode ser compartilhada.
“Alguns adultos, na tentativa de proteger, distanciam as crianças de uma realidade inevitável. Assim, é importante que elas estejam presentes em momentos em que a família expressa o pesar, desde que adotando cuidados para que elas não sejam expostas a situações traumáticas. O objetivo é mostrar que a tristeza pode ser compartilhada e acolhida”, orienta.
A participação, entretanto, deve considerar a idade, a vontade e as condições emocionais da criança. Antes da cerimônia, é importante explicar o que ela encontrará: pessoas chorando, familiares reunidos para se despedir e, dependendo do tipo de velório, o corpo da pessoa falecida em um caixão.
Também é recomendável que um adulto de confiança esteja disponível para acompanhá-la, responder às perguntas e retirá-la do ambiente caso ela demonstre desconforto. Se não quiser participar, a criança não deve ser obrigada. Desenhar, escrever uma mensagem ou guardar uma lembrança são outras possibilidades de despedida.
LUTO
Nem sempre a tristeza infantil aparece da maneira que os adultos esperam. Algumas crianças choram, fazem muitas perguntas ou demonstram saudade. Outras ficam mais quietas, irritadas ou parecem voltar rapidamente às brincadeiras.
Essas reações não significam necessariamente que a criança não compreendeu a perda ou que não esteja sofrendo. A maneira de expressar os sentimentos varia conforme a idade, o vínculo com a pessoa falecida, as experiências anteriores e o apoio recebido.
Manter uma rotina relativamente estável, oferecer oportunidades para conversar e permitir que a criança expresse seus sentimentos são formas de ajudá-la durante esse período. Também é importante evitar cobranças para que ela seja forte, pare de chorar ou supere rapidamente a perda.
“O adulto não precisa esconder a própria tristeza. Demonstrar saudade e explicar que está triste porque sente falta da pessoa que morreu pode ajudar a criança a reconhecer seus sentimentos. Ao mesmo tempo, é importante transmitir segurança, deixando claro que ela continuará recebendo cuidado e proteção”, afirma Judson.
Embora o luto seja uma reação natural à perda, algumas mudanças de comportamento merecem atenção. Judson destaca que crianças podem voltar a apresentar comportamentos já superados, como fazer xixi na cama, além de manifestar irritabilidade, choro frequente e queda no rendimento escolar.
Essas alterações não significam, isoladamente, que exista um transtorno psicológico. É necessário observar sua intensidade, frequência, duração e o impacto na vida cotidiana. “É importante buscar um psicólogo habilitado sempre que considerar necessário, mas principalmente quando esses comportamentos apresentam intensidade, duração e prejuízos funcionais significativos”, conclui. O acompanhamento profissional pode ajudar a criança a expressar o que sente e orientar a família sobre como oferecer apoio durante o processo de luto.


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