Plantas de quintal sustentam alimentação e cultura em comunidades quilombolas

Entre as plantas cultivadas pelos quilombolas, estão as PANCs bredo e a língua-de-vaca, bastante nutritivas

Para muitas famílias quilombolas do interior da Bahia, o quintal ao redor de casa é um recurso estratégico diante da falta de direitos territoriais. Em comunidades como Matinha dos Pretos (em Feira de Santana) e Paus Altos (em Antônio Cardoso), esses pequenos lotes funcionam como espaços de resistência em que o cultivo de plantas preserva a identidade do grupo, mesmo sem o reconhecimento oficial das terras pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

A força desse trabalho foi dimensionada em um estudo publicado na revista Ambiente & Sociedade. Feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Estadual da Califórnia, o levantamento catalogou 148 espécies vegetais em quintais dos dois municípios e revelou que 115 plantas têm fins medicinais e são 66 voltadas à alimentação.

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As mulheres sustentam quase inteiramente essa rotina. Enquanto os homens costumam buscar trabalho externo, elas assumem o comando da terra e da produção, atuando da escolha das sementes até a venda do que sobra da colheita em feiras livres. Jociene Nascimento, pesquisadora que acompanhou o dia a dia dessas comunidades, destaca que essa gestão feminina torna a presença de comida variada mais frequente nos pratos e possibilita o acesso a remédios naturais. “Nesse contexto, os quintais tornam-se espaços estratégicos de garantia da segurança alimentar, pois são as mulheres que selecionam, cultivam e manejam uma diversidade de espécies assegurando uma alimentação mais variada, acessível e culturalmente adequada”.

Entre os achados, chamam a atenção 30 Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), como o bredo e a língua-de-vaca, que nascem sozinhas e são muito nutritivas, mas praticamente desconhecidas fora desses quintais. Nascimento pontua que o desinteresse por essas plantas tem raízes sociais profundas. “Em muitos casos, as PANC também são associadas a estigmas sociais, vistas como comida de pobre ou de tempos de escassez o que contribui para seu abandono”, afirma.

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O distanciamento das origens ganha ainda mais força com a invasão dos alimentos industrializados e o uso constante de tecnologias, criando um abismo entre gerações. Sem a conversa entre avós e netos, o conhecimento sobre como preparar um xarope caseiro ou o ofício milenar das parteiras está desaparecendo. Para os pesquisadores, os quintais hoje desafiam a modernização para evitar o apagamento do patrimônio cultural negro. “Significa que mesmo convivendo com acesso facilitado à informação, novas tecnologias, medicamentos, alimentos processados e ultraprocessados, os quintais de comunidades tradicionais ainda preservam parte da cultura e saberes de seus antepassados, por isso são tidos como espaços de resistência”.

A saída sugerida pelos cientistas é transformar esses dados em políticas públicas, incluindo a integração de ervas medicinais no atendimento básico de saúde e o incentivo a hortas nas escolas. O objetivo central é reconectar a juventude a esses conhecimentos para que o quintal volte a ser visto não apenas como um pedaço de terra, mas como uma fonte inesgotável de orgulho e autonomia.

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