Em 2015, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 3,24% das crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos que moravam com a mãe e uma figura paterna estavam trabalhando no Brasil. Em 90,49% dos casos, a mãe ou o pai desses jovens também trabalhou na infância e, em 59,31%, ambos os pais trabalharam.
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A conclusão de que o trabalho infantil dos pais está associado a uma maior probabilidade de trabalho infantil entre seus filhos está em artigo publicado em maio na revista Economia e Sociedade. O trabalho deriva da pesquisa de mestrado da doutoranda Isabela Almeida dos Santos, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), sob orientação da professora Lorena Vieira Costa.
As pesquisadoras realizaram análise dos dados socioeconômicos e demográficos das crianças, adolescentes e de suas famílias com base na PNAD de 2015, a última edição a coletar informações sobre a idade em que os indivíduos começaram a trabalhar.
Os dados mais recentes do IBGE sobre trabalho infantil datam de 2024 e indicam que o país tinha mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos em situação de trabalho infantil, o que representa 4,3% da população nessa faixa etária.
Além da tendência intergeracional, as autoras também verificaram a combinação entre o histórico de trabalho infantil e contexto rural das famílias. Quase metade das crianças e adolescentes atuam no setor agrícola (43,78%), enquanto cerca de duas em cada dez (20,26%) trabalham no comércio. Indústria (12,28%), trabalho doméstico (7,99%), serviços (5,54%), construção (4,54%) e outras atividades (5,62%) vêm em seguida no levantamento.
Também estão associadas ao trabalho infantil variáveis como o menor nível educacional dos pais e a menor renda per capita dos domicílios, além da presença maior de meninos entre os trabalhadores infantis. O estudo, porém, pondera que o trabalho de meninas em afazeres domésticos é uma questão invisibilizada nas estatísticas oficiais.
Segundo Isabela, os resultados da pesquisa ajudam a compreender como o trabalho infantil se relaciona com a trajetória das famílias ao longo do tempo, evidenciando associações também com o trabalho rural e a situação de pobreza das famílias.
A pesquisadora destaca que os resultados sugerem que ações de combate ao trabalho infantil precisam ir além da fiscalização. “Os dados mostram que, em média, o trabalho precoce está mais associado à reprodução de desigualdades do que à construção de oportunidades”, observa.
Para a pesquisadora, o trabalho não rompe com o que outras pesquisas já apontavam, mas aprofunda e qualifica esse entendimento. “O que a pesquisa evidencia é que esse efeito não é uniforme: ele se torna mais relevante quando há acúmulo de vulnerabilidades”, afirma a pesquisadora.
Isabela segue acompanhando os números sobre trabalho infantil no Brasil, desta vez aprofundando-se na análise da dinâmica intrafamiliar. “Venho investigando como o poder de barganha das mulheres dentro do domicílio influencia decisões relacionadas ao trabalho infantil e à trajetória educacional das crianças”, detalha a doutoranda.


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