A alta nos preços dos supermercados costuma ser o principal termômetro da economia para a maioria da população. No noticiário, é comum que a culpa pelo encarecimento da comida recaia sobre vilões isolados, como uma seca inesperada, uma geada sazonal ou as oscilações do dólar. No entanto, para além das variações pontuais, o prato do brasileiro tem ficado cronicamente mais caro, dificultando o acesso contínuo a refeições balanceadas e nutritivas.
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Um novo estudo brasileiro, publicado pela ACT Promoção da Saúde, revela que a inflação de alimentos no Brasil vai muito além de crises passageiras e se configura como um fenômeno estrutural e sistêmico, que encarece os produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados. A pesquisa foi conduzida por Valter Palmieri Júnior, economista e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, e detalha as engrenagens políticas e econômicas que ditam os preços nas prateleiras.
Para a ACT, o estudo supera análises simplificadas e superficiais ao revelar uma rede de fatores interdependentes, que se influenciam continuamente. De acordo com Marília Albiero, gerente de inovação e estratégia da ACT, “essa abordagem sistêmica amplia a compreensão dos mecanismos que sustentam o problema e qualifica o diagnóstico. Nesse sentido, reforça a importância de dar continuidade e aprimorar as políticas públicas existentes, e ao mesmo tempo chama atenção para a necessidade de soluções inovadoras capazes de responder às demandas atuais da sociedade e do planeta”.
Segundo o pesquisador Valter Palmieri Júnior, a inflação dos alimentos no país está profundamente ligada ao padrão de desenvolvimento focado na exportação, que deixa o abastecimento interno vulnerável e em segundo plano.
“A inflação de alimentos no Brasil decorre de um conjunto de fatores inter-relacionados que ajudam a explicar por que ela tem sido, nas últimas décadas, superior à inflação geral”, afirma Palmieri Júnior. O modelo agroexportador e a forma de inserção internacional do país direcionam recursos produtivos para a exportação, o que afeta, indiretamente, a produção e os custos dos alimentos voltados ao mercado interno, como arroz, feijão, frutas e hortaliças.
Além da prioridade voltada ao mercado externo, a ausência de políticas públicas consistentes para a agricultura familiar e a alta concentração econômica em toda a cadeia produtiva pressionam as margens de lucro e encarecem a comida. Esse cenário altera drasticamente as escolhas nos lares mais pobres, que acabam migrando para opções aparentemente mais baratas, porém prejudiciais à saúde.
“Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%”, alerta o autor do estudo. “Alimentos in natura tiveram aumentos superiores à inflação geral, enquanto muitos ultraprocessados ficaram relativamente mais baratos. Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e tende a piorar a qualidade da dieta.”
Para reverter esse quadro e garantir o direito à alimentação adequada, a pesquisa defende uma reconstrução institucional urgente, dividida em frentes interdependentes. O estudo propõe o fortalecimento da base produtiva nacional com crédito e acesso à terra, o fomento à concorrência para enfrentar a concentração de mercado, além da retomada de estoques públicos para reequilibrar o abastecimento doméstico frente às exportações. Controlar a inflação da comida, portanto, exige tratar a alimentação como um eixo central das políticas de Estado, superando a lógica focada apenas na rentabilidade e no comércio exterior.


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