Flávio Bolsonaro divulga carta golpista e enfrenta repúdio de aliados e partidos

O herdeiro tentou. E falhou.

📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.

Havia uma expectativa, mesmo que modesta, de que Flávio Bolsonaro fosse capaz de ocupar um espaço legítimo na oposição brasileira. Que, diante da derrota nas urnas, o senador do PL pudesse ao menos representar um conservadorismo disposto a jogar dentro das regras do jogo democrático. O que vimos, porém, foi o oposto. Com a divulgação de uma carta se proclamando presidente eleito do Brasil (e depois voltando atrás dizendo que é “líder do Brasil”), Flávio Bolsonaro não apenas encerrou essa expectativa como revelou, de vez, os contornos de um projeto que nunca foi sobre o povo, mas sobre a perpetuação de um clã no poder.

A carta não enganou ninguém (talvez os mais fanáticos e cegos), nem mesmo os aliados mais próximos. Reservadamente, correligionários do senador admitiram decepção. Tarcísio Gomes de Freitas, governador de São Paulo e nome mais bem posicionado da direita institucional, já disse que é preciso respeitar o resultado das eleições e seguir em frente. Rogério Marinho, coordenador da própria campanha do PL, declarou não ter provas de fraude e reconheceu que o momento é de preparar a oposição para enfrentar o quarto mandato de Lula. Partidos como União Brasil, PSD, PSDB e MDB repeliram o ato publicamente. Até lideranças evangélicas, historicamente próximas ao bolsonarismo, recusaram endossar o teor golpista do documento.

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O isolamento é revelador. Quando um político perde o apoio até dentro de sua própria base, o que resta não é liderança, é espetáculo.

E um espetáculo com pés de barro. O Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Alexandre de Moraes, ou melhor, por Nunes Marques, indicado pelo próprio Jair Bolsonaro, confirmou que as eleições transcorreram de forma limpa e que o resultado já foi oficialmente proclamado. A democracia, desta vez, respondeu com fatos onde o populismo tentou instalar dúvidas.

O que preocupa, entretanto, não é apenas o gesto isolado de Flávio Bolsonaro. É o que ele representa dentro de um campo político que ainda abriga uma bancada radical numerosa na Câmara dos Deputados, disposta a normalizar o excepcional e a tratar o golpe como retórica aceitável. Esse grupo, mesmo que crescentemente isolado, segue sendo um risco real para a estabilidade institucional do país.

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O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já trata o episódio como um problema a resolver. O temor é que a derrapagem de Flávio enfraqueça o partido justamente num momento em que ele sai fortalecido eleitoralmente. A senadora eleita Michelle Bolsonaro pode ser o nome escolhido para reordenar o bolsonarismo, mas, como se sabe, os herdeiros do clã raramente abrem mão do protagonismo.

O Brasil elegeu Lula. As urnas falaram, as instituições confirmaram, e a maioria do país avançou. O que Flávio Bolsonaro fez foi tentar reverter a realidade com papel e caneta, de um país que não é o seu e a partir de um aeroporto nos Estados Unidos. Não funcionou. E não vai funcionar. Porque a democracia brasileira, ainda que constantemente ameaçada, encontrou em sua própria sociedade a força necessária para resistir.

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