Por anos, bilhões de reais escorreram silenciosamente pelas mãos de trabalhadores brasileiros em direção às plataformas de apostas esportivas. As bets, como ficaram conhecidas, não vendiam apenas a ilusão de enriquecimento rápido. Vendiam, na prática, o feijão, o arroz, o óleo de cozinha de milhões de famílias que trocaram a certeza da alimentação pelo sonho improvável de um grande prêmio.
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A proibição das apostas eletrônicas, que entrou em vigor no dia 25 de setembro, parece estar devolvendo parte dessa renda a quem de fato precisava dela. Os dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) são eloquentes: na semana de 5 a 11 de outubro, o varejo alimentar cresceu 6,5% em todo o país em comparação ao mesmo período do ano anterior. Na semana seguinte, de 12 a 18 de outubro, a alta foi de 6,3%.
O Banco Central já havia sinalizado a dimensão do estrago: quando as bets foram proibidas, houve queda imediata de 10% no número de transações por Pix no país. Ou seja, uma parcela considerável das movimentações financeiras da população estava indo parar nos cofres dessas empresas, a maioria delas sediada fora do Brasil, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento nacional.
O crescimento no consumo de itens básicos não representa prosperidade. Representa recomposição. Significa que famílias que antes sacrificavam a cesta de compras para tentar a sorte nas apostas estão, agora, conseguindo colocar macarrão e café em casa. E isso é, ao mesmo tempo, um alívio e uma denúncia. Um alívio porque a vida cotidiana de pessoas pobres e de classe média baixa ficou um pouco menos sufocada. Uma denúncia porque escancarou o quanto esse mercado vivia, literalmente, às custas da fome alheia.
Não por acaso, foram as regiões Sul, Sudeste e Nordeste as que registraram os maiores saltos no consumo. Regiões com grandes populações de trabalhadores assalariados e informais, exatamente o público que as bets miravam com sua publicidade agressiva e seus influenciadores digitais pagos para normalizar o vício.
A proibição chegou tarde, como reconheceu o próprio setor supermercadista. Mas chegou. E os efeitos imediatos provam que o Estado, quando regula em favor da população, produz resultados concretos na vida real das pessoas, não apenas em discursos.
O debate agora precisa ir além. O que fazer para que essa renda recuperada se mantenha circulando de forma produtiva? Como garantir que trabalhadores vulneráveis não sejam novamente capturados por outro mecanismo de extração de renda disfarçado de entretenimento? A regulação foi um primeiro passo necessário. Mas a proteção social permanente exige políticas estruturais, educação financeira acessível e um olhar atento do poder público sobre os interesses que, já articulados, buscam reverter a proibição na Justiça e no Congresso Nacional.


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