O senador Flávio Bolsonaro, derrotado nas urnas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, optou por um discurso de dois minutos que, apesar de curto, foi suficiente para concentrar o pior da retórica golpista que seu campo político vem praticando há anos. Diante de aliados que aplaudiam de pé, ele afirmou não reconhecer o resultado das eleições e anunciou que pedirá a anulação do pleito. Não apresentou provas. Não indicou irregularidades concretas. Usou a voz e o palanque para semear dúvida onde há clareza.
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O pretexto escolhido foi a prorrogação de duas horas no horário de votação, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal. Uma medida extraordinária, sim, mas adotada no exercício legítimo da função jurisdicional, em um país onde milhares de cidadãos ainda enfrentam barreiras para exercer seu direito ao voto. O próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, foi categórico: a decisão não alterou o resultado do processo eleitoral. O pleito foi regularmente conduzido.
Mas a narrativa que Flávio Bolsonaro escolheu construir não precisa de fatos. Ela precisa de insinuação. Por isso, ele atacou a trajetória de Zanin antes de chegar ao STF, como se a história profissional de um ministro fosse prova de crime. Por esse raciocínio torto, qualquer decisão judicial que contrarie os interesses bolsonaristas poderia ser invalidada por associação. É uma lógica que não serve à democracia. Serve, apenas, ao autoritarismo.
O Brasil já viveu esse roteiro. Em 2022, após a derrota de Jair Bolsonaro, acampamentos golpistas tomaram frente a quartéis por meses. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 deixou marcas no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no próprio STF. Agora, quatro anos depois, o filho tenta repetir o script do pai, apostando que a repetição da mentira cansa a resistência democrática.
A população brasileira, especialmente a parcela mais pobre, que mais sofreu nos anos de desmonte de políticas públicas e que mais se beneficiou da retomada do papel social do Estado, tem o direito de ver sua escolha respeitada. O voto popular não é um detalhe processual. É a expressão mais direta da soberania de um povo. Quando alguém se recusa a reconhecê-lo, não está apenas questionando uma eleição. Está questionando a própria capacidade do cidadão comum de decidir o seu destino.
As instituições precisam agir com firmeza. A retórica do não reconhecimento deve ser tratada pelo que é: um atentado à ordem democrática, passível de responsabilização jurídica. A liberdade de expressão não ampara a destruição das bases da república.
A democracia brasileira sobreviveu a tentativas muito mais organizadas de ruptura. Sobreviverá a este discurso de dois minutos também. Mas é preciso que cada brasileiro entenda que a vigilância democrática não tem hora para acabar.


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