A corrida eleitoral de 2026 ganhou mais um capítulo de confronto político com a batalha em torno dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos candidatos à Presidência da República. De um lado, Flávio Bolsonaro, do PL, candidato que carrega o peso do bolsonarismo e toda a sua herança de institucionalização da desconfiança. Do outro, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, presidente que busca a reeleição num cenário de polarização intensa. A questão, em aparência, é simples: transparência. Na prática, é política pura.
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A campanha do candidato do PL transformou a proposta de abertura dos sigilos num instrumento de desgaste, não de clareza. Flávio Bolsonaro impôs condicionantes, incluiu nomes como o de terceiros supostamente ligados ao presidente e só depois sinalizou aceitação. A estratégia é conhecida: criar ruído, alimentar a suspeita sem provar nada, fazer da insinuação uma arma eleitoral. É o mesmo manual que o bolsonarismo aperfeiçoou ao longo dos anos de destruição das instituições democráticas no Brasil.
O PT, por sua vez, respondeu com protocolos no TSE e com a presença de nomes como o ex-ministro Camilo Santana e o deputado Guilherme Boulos. A campanha petista aceitou as condicionantes e entregou os documentos dentro do prazo. Transparência foi o tom. E o adversário, depois de ter o blefe chamado, apareceu num ato em Fortaleza e sequer tocou no assunto. Sete minutos de discurso. Zero menção ao tema que ele mesmo colocou na pauta nacional.
Isso diz muito.
A direita brasileira, especialmente em sua versão bolsonarista, construiu uma narrativa de combate à corrupção que nunca se sustentou na prática. O mesmo Flávio Bolsonaro que exige transparência do adversário é filho de um governo que escondeu cartões corporativos, que tentou suprimir investigações, que usou o aparato do Estado para proteger aliados. A memória do eleitor precisa ser mais longa do que o ciclo eleitoral.
O senador eleito Deltan Dallagnol, que fala em nome da campanha bolsonarista nesse episódio, representa bem essa contradição. Ele, que foi o rosto da Lava Jato, hoje serve a um projeto político que sempre se beneficiou da instrumentalização da Justiça, nunca de sua aplicação equânime. Sua presença como porta-voz do PL não é irônica por acaso. É sintomática de um campo político que aprendeu a usar o vocabulário da lei para fins bem diferentes da justiça.
Enquanto isso, Lula comparou o duelo ao jogo de truco. A metáfora é boa. No truco, quem tem a carta mais forte na mão muitas vezes prefere o blefe. E quem chama o blefe, expõe o jogo. O PT chamou. O PL mudou de assunto.
A quatro dias do segundo turno, o Brasil segue dividido entre dois projetos distintos de país. De um lado, um governo que, com todas as suas contradições e limites, construiu políticas de redistribuição de renda, retomada do emprego e reconstrução das instituições. Do outro, uma candidatura que promete segurança pública com punição de menores como adultos, castração química e o velho apelo ao medo como motor eleitoral.
A democracia se faz com transparência, sim. Mas se faz também com memória. E o Brasil não pode esquecer o que o bolsonarismo representou quando esteve no poder.


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