Debate da Band expõem limites do formato diante do avanço da desinformação

Quando não há resposta honesta possível, inunda-se o espaço com ruído

Havia algo profundamente revelador no debate presidencial exibido pela Band, neste domingo, 18 de outubro. Não apenas nas respostas dadas, mas, sobretudo, nas respostas que nunca vieram.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou cobranças objetivas, com nomes, valores e datas. Questionou os R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro teria solicitado ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. Perguntou sobre a mansão de R$ 10 milhões adquirida pelo senador com um salário de parlamentar. Lembrou o voto solitário de Flávio, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras públicas do Rio de Janeiro. Responsabilizou o bolsonarismo pelo caos na gestão da pandemia, pelo negacionismo científico e pelo incentivo a medicamentos sem eficácia comprovada.

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A resposta de Flávio Bolsonaro para cada uma dessas perguntas foi sempre a mesma: o desvio.

Atacar o presidente. Citar familiares. Circular atrás do adversário enquanto ele falava, numa coreografia de desrespeito encenada para as câmeras. Fazer gestos. Provocar a plateia. Interromper. Tudo, menos responder.

Essa tática não é nova, e não é inocente. É a estrutura do populismo autoritário funcionando exatamente como foi projetada para funcionar: quando não há resposta honesta possível, inunda-se o espaço com ruído. A desinformação não precisa convencer, precisa apenas confundir. E a confusão, num debate televisionado, quase sempre favorece quem a produz.

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É por isso que o formato atual dos debates brasileiros segue sendo insuficiente para a gravidade do momento democrático que o país atravessa. Não basta dar tempo igual a quem fala com responsabilidade e a quem faz da mentira um instrumento eleitoral. É preciso que haja, dentro do próprio debate, um mecanismo de checagem em tempo real. Uma equipe dedicada exclusivamente a identificar afirmações falsas ou sem comprovação, com o poder de interromper o debate no momento em que a inverdade é detectada.

Não como censura. Como higiene democrática.

Quando Flávio prometeu um “Ministério da Prosperidade” sem explicar como funcionaria, quando prometeu reduzir juros sem apresentar qualquer mecanismo concreto, quando classificou facções criminosas como terroristas sem desenvolver o que isso significaria na prática jurídica, a mediação não teve instrumentos para exigir substância. A jornalista Adriana Araújo, a quem coube intervir quando o candidato do PL insistia em interromper a fala de Lula nas considerações finais, fez o que pôde dentro de um formato que não foi desenhado para coibir o abuso.

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Os debates só serão levados a sério quando os candidatos tiverem medo de falar aquilo que não sabem de verdade. E quem não quiser ir a eles precisará carregar o peso simbólico de quem foge do escrutínio público, de quem teme ser confrontado com os próprios números, os próprios votos, o próprio histórico.

Neste domingo, Lula foi a campo com fatos. Falou de licença-maternidade, de pandemia, de trabalhadores que conhecem o ônibus não por literatura, mas porque dependem dele todo dia para sobreviver. Falou de um Brasil concreto, de carne e necessidade.

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Do outro lado, o que houve foi o espetáculo da esquiva.

O eleitor que acompanhou o debate com atenção tem condições de tirar suas próprias conclusões. Mas o eleitor que só viu os flashes, os gestos e os gritos talvez não tenha conseguido distinguir onde estava a substância e onde estava o vazio cuidadosamente embrulhado em agressividade.

Esse é o desafio que os meios de comunicação e a sociedade democrática brasileira precisam encarar: não é suficiente transmitir o debate. É necessário qualificá-lo. É necessário que a mentira encontre resistência antes de circular livremente pelo horário nobre.

Porque quando a mentira não tem custo, a democracia paga a conta.

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