Nas ruas sem regra: o Maranhão e o caos da mobilidade elétrica

A cidade que cuida do seu povo planeja suas ruas para todos. E não apenas para quem tem carro.

Imperatriz deu um passo. Pequeno, talvez. Mas necessário. Na última quinta-feira (15), a Prefeitura da segunda maior cidade do Maranhão publicou a Portaria nº 013, assinada pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes, proibindo a circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas, patinetes, hoverboards, monociclos e scooters nas calçadas, calçadões e espaços de lazer da Avenida Beira-Rio. O objetivo declarado é proteger pedestres, idosos e crianças que frequentam um dos pontos de convivência mais queridos da cidade.

A medida, em si, não é revolucionária. É o mínimo. E o fato de que ela precisou ser regulamentada por portaria municipal, em outubro de 2026, diz muito sobre o tamanho do vácuo que o poder público maranhense deixou se abrir ao longo dos últimos anos.

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O Maranhão foi pego de surpresa. Enquanto o mercado de mobilidade elétrica individual crescia de forma acelerada, impulsionado por crédito fácil, aplicativos de delivery e pela promessa de um deslocamento barato e ágil, o planejamento urbano ficou parado. E as ruas viraram campo de disputa sem árbitro.

Em São Luís, a situação é cada vez mais visível e preocupante. A capital registra um crescimento notável no número de bicicletas elétricas circulando pelas principais avenidas. Não pelas ciclovias, que em muitos trechos sequer existem ou estão em condições precárias de conservação. Pelas avenidas mesmo. Dividindo espaço, em alta velocidade, com carros e motocicletas. A cena se repete na Avenida Litorânea, no Calhau, no acesso ao bairro São Francisco, no Centro Histórico. Um ciclista elétrico espremido entre dois ônibus não é imagem de cidade moderna. É imagem de cidade que falhou em planejar o presente.

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E São Luís já enfrenta, por si só, um caos histórico no trânsito. A capital maranhense convive com uma malha viária insuficiente, transporte público cronicamente sucateado e uma cultura de uso do espaço público que nunca foi democraticamente pactuada. Nesse cenário, a chegada em massa de novos equipamentos de mobilidade individual jogou mais combustível numa fogueira que já estava acesa.

O problema não é tecnológico. As bicicletas elétricas, os patinetes, os ciclomotores, tudo isso pode e deve ser parte de uma solução real de mobilidade urbana, especialmente para trabalhadores de baixa renda que enxergam nesses equipamentos uma alternativa concreta ao transporte público deficiente. O problema é estrutural e político. Faltam ciclovias. Faltam faixas exclusivas. Falta fiscalização. Falta, acima de tudo, uma política pública municipal que trate o tema com a seriedade que a vida das pessoas exige.

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Imperatriz, ao menos, reagiu antes que a Beira-Rio virasse palco de uma tragédia. Mas a portaria que restringe esses veículos nos espaços de lazer não resolve o problema de fundo: para onde eles vão? Se a rua também não tem infraestrutura para recebê-los com segurança, a proibição apenas desloca o risco. Não o elimina.

O que se exige das gestões municipais do Maranhão, portanto, não é apenas repressão ou portaria. É investimento. É planejamento feito com participação popular, com escuta às periferias, com atenção real aos trabalhadores que usam a bicicleta elétrica não como hobby de fim de semana, mas como instrumento de sobrevivência diária.

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São Luís e Imperatriz precisam de políticas de mobilidade construídas a partir da realidade concreta do povo maranhense, não de soluções cosméticas que empurram o problema para a próxima gestão.

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