Coletado pela primeira vez em 1948 na bacia do rio Barra Seca, no norte do Espírito Santo, um peixe elétrico passou quase oito décadas guardado em coleções de museus com o nome de outra espécie. Agora, pesquisadores da USP, Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e Unesp (Universidade Estadual Paulista) descreveram formalmente o animal como espécie nova: o sarapó Gymnotus talian. O estudo foi publicado na revista Neotropical Ichthyology nesta sexta (16).

✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
Segundo os registros de museus, a espécie foi coletada em apenas três expedições, em 1948, 2007 e 2012. Os exemplares foram catalogados como Gymnotus pantherinus, espécie parecida descrita a partir de rios próximos a Santos (SP). Trabalhos anteriores, incluindo um estudo genético de 2021, já indicavam que a população de Linhares era distinta. A nova análise anatômica confirmou que se tratava de uma espécie inédita e permitiu descrevê-la formalmente.
O G. talian pertence a um grupo de peixes elétricos com características anatômicas muito particulares. A maioria das espécies do gênero Gymnotus exibe faixas escuras oblíquas, mas o G. talian e seus três parentes mais próximos possuem manchas escuras irregulares e arredondadas. A sua linha lateral, um sistema sensorial usado para detectar vibrações na água, é interrompida em vários segmentos, especialmente na parte da frente do corpo, assemelhando-se a um traço pontilhado. O que separa o G. talian dessas espécies aparentadas são detalhes como o número de raios na nadadeira peitoral e de escamas ao longo da linha lateral, a quantidade de dentes e o formato de alguns ossos.
Peixes elétricos são equipados com órgãos formados por milhares de células musculares modificadas, que funcionam como pilhas biológicas. Quando o cérebro emite um comando, essas células liberam uma descarga de energia na água. A utilidade desse choque varia. Em peixes menores, como o sarapó recém-descrito, a voltagem é fraca e funciona como um sonar para navegar em águas escuras e se comunicar com outros indivíduos. Já em espécies maiores, como o famoso poraquê, a descarga elétrica é potente o suficiente para paralisar presas, afastar predadores e até ferir humanos.
O animal vive em pequenos riachos e rios de áreas florestadas e sombreadas, com águas escuras cor de chá. Nas últimas décadas, a região onde a espécie foi encontrada sofreu desmatamento e poluição. “O cenário de degradação ambiental pode afetar diretamente a sobrevivência dessa nova espécie de peixe elétrico, principalmente pela perda dos ambientes que ela utiliza como abrigo”, afirma Vinicius Cassaro, biólogo e um dos autores da pesquisa. “O desmatamento da vegetação às margens dos rios, a poluição e outras alterações no ambiente aquático podem reduzir a disponibilidade desses habitats e representar uma ameaça à espécie.”
Pelos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), os autores classificam a espécie como Pouco Preocupante, já que parte de sua área de ocorrência fica na Reserva Biológica de Sooretama, que ainda mantém habitats relativamente preservados. Mas eles ressaltam que a situação das populações fora da reserva é incerta, sobretudo porque não há coletas recentes de peixes desse grupo na região. Os próximos passos da pesquisa serão ampliar a amostragem para outras áreas e rios costeiros da região, com o objetivo de mapear a distribuição das populações de sarapós e obter novas amostras que ajudem a compreender melhor sua ocorrência e diversidade.
O batismo biológico carrega um registro histórico intencional. O termo talian faz referência ao Talian, língua surgida da mistura de dialetos italianos com o português e reconhecida pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro. O Espírito Santo foi um dos primeiros estados a receber imigrantes italianos. O nome também homenageia os antepassados do primeiro autor, que se fixaram em Castelo, no sul do estado.
“A ideia surgiu da tentativa de dar à nova espécie um nome que também tivesse uma ligação com a história e a cultura da região onde ela foi descoberta. Foi uma maneira de fazer com que o nome da espécie carregasse, além de seu significado científico, uma homenagem à memória e à diversidade cultural das pessoas que ajudaram a construir a identidade do Espírito Santo”, diz o pesquisador.


Deixe um comentário