Fazendeiros da região da terra indígena Apyterewa, no sudeste do Pará, têm circulado em grupos de mensagens ameaças de invadir o território dos parakanãs no próximo dia 25, data do segundo turno das eleições. Os relatos, reunidos em oito áudios obtidos pela Folha, associam a ação a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial e à eleição do governador Dr. Daniel (Podemos), no Pará.
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Por razões de segurança, a transcrição dos áudios não será publicada, nem a identidade dos envolvidos. Os recados foram enviados por WhatsApp por moradores da região a indígenas nos últimos dias, segundo a reportagem. O material é de conhecimento dos órgãos de inteligência do governo federal.
As mensagens afirmam que os pecuaristas aguardam o dia da votação para entrar na terra indígena e construir fazendas dentro da área protegida. A expectativa relatada nos áudios é de que, caso Flávio seja eleito e com Dr. Daniel no governo estadual, o território seja retirado dos parakanãs e repassado aos fazendeiros da região.
A Folha cruzou os metadados de origem dos áudios com bancos de dados e conversou com investigadores que atuam no caso para confirmar que eles são ligados a endereços nos arredores da Apyterewa.
A campanha de Flávio foi procurada pela reportagem, por meio de seu canal oficial de imprensa, desde a noite de quinta-feira, dia 8, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. A gestão estadual do Pará também foi procurada e não se posicionou. Dr. Daniel disse, por meio de sua assessoria, que não vai comentar o caso.
As ameaças foram tema da reunião do Comitê de Desintrusão do governo Lula na última quinta-feira. Polícia Federal, Ibama, Funai e Ministério dos Povos Indígenas afirmaram que monitoram a situação.
O Ministério dos Povos Indígenas declarou, em nota, que acompanha o aumento da pressão para a ocupação ilegal do território. Segundo a pasta, o comitê deliberou pelo reforço das ações de segurança, incluindo o aumento do efetivo mobilizado, para intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais. O ministério também esclareceu que a apuração dos fatos relacionados aos áudios compete às autoridades policiais responsáveis pela investigação.
O Ibama informou que acompanha a situação e afirmou haver evidências de mobilização semelhante em outras regiões da Amazônia, tanto em terras indígenas quanto em outras áreas protegidas, com vistas à retomada das atividades de garimpo ilegal.
Um agente da Polícia Federal disse à reportagem, sob condição de anonimato, que as informações de inteligência sobre as ameaças aos parakanãs são sólidas e preocupantes.
O caso mais emblemático da pressão sobre a Apyterewa ocorreu durante o governo Jair Bolsonaro. Pecuaristas chegaram a construir uma pequena cidade dentro da área protegida, conhecida como Vila Renascer. A terra indígena, homologada em 2007, fica em São Félix do Xingu, ocupa 773 mil hectares e abriga mais de mil parakanãs de recente contato. A classificação indica que o povo preserva sua cultura e organização social, com autonomia e certo distanciamento da sociedade não indígena. Por isso, a interação não controlada com invasores representa uma ameaça maior do que para grupos mais integrados à sociedade ocidental.
Dados do Inpe mostram que o desmatamento na Apyterewa saltou de 18,9 km² em 2018 para 85,3 km² em 2019, primeiro ano da gestão bolsonarista, e atingiu recorde em 2022, com 102,2 km² destruídos. Em 2023, primeiro ano do governo Lula, caiu para 20,6 km².
A área também é objeto da ADPF 709. Em 2020, o então ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso determinou que o governo federal deveria expulsar invasores das áreas indígenas, decisão não cumprida por Bolsonaro. A desintrusão começou em 2023, com reação violenta dos fazendeiros, que realizam emboscadas periódicas contra operações de retirada de gado ilegal. Em diversos casos, pontes dentro da área foram derrubadas para inviabilizar a passagem dos agentes. Um servidor da Funai foi baleado no final de 2023 e um contratado do Ibama foi morto em 2025.
Nos últimos meses, segundo autoridades ouvidas pela reportagem, o clima eleitoral voltou a acirrar os ânimos na região. Os focos de incêndio explodiram nas últimas semanas, e investigadores suspeitam de queimadas propositais. Dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu mostram que os focos passaram de 41 em julho para 626 em agosto e 1.007 no mês passado.
Em áudios recebidos pelas lideranças e obtidos pela Folha, moradores relatam maior circulação de motos e caminhonetes na região e dizem que fazendeiros compram lonas e materiais de roça para iniciar uma invasão após o segundo turno. As mensagens orientam os indígenas a evitar áreas onde pecuaristas já preparam o solo para pastagens e plantações e sugerem que os parakanãs deixem a região.
Com informações do ICL Notícias.


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