As mudanças climáticas têm potencializado a frequência, duração e intensidade de eventos climáticos extremos que afetam cada vez mais brasileiros. Um estudo realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) analisou 73.701 mensagens de texto (SMS) enviadas pelos órgãos de proteção e defesa civil à população de todo o país entre 1º de janeiro de 2018 e 31 de dezembro de 2023. Os resultados apontam que apenas 1,83% continham todos os elementos considerados essenciais para uma comunicação de alerta eficaz.
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Os pesquisadores da PUCPR analisaram as mensagens de acordo com o Warning Response Model (Modelo de Resposta a Alertas), segundo o qual um alerta para ser considerado como eficaz deve apresentar cinco elementos fundamentais: fonte oficial, identificação do perigo, localização geográfica, orientação de ação preventiva e janela temporal (início e duração). Ou seja, a mensagem deve identificar quem emite o alerta, qual é o perigo, onde ele pode ocorrer, o que a população deve fazer e em que período a situação deverá ocorrer. Além disso, informações sobre os possíveis impactos ajudam a população a compreender as consequências esperadas.
Embora 100% das mensagens identificassem a fonte e 99% mencionassem o tipo de perigo, o estudo identificou lacunas de conteúdo. Apenas 7,7% dos alertas explicavam os potenciais danos do perigo. Na prática, existe uma diferença importante entre informar que há uma chuva intensa e explicar que o evento pode provocar alagamentos, interrupção de vias, queda de árvores, interrupção de serviços ou risco à vida.
Os resultados também indicam que 82,5% das mensagens apresentavam algum tipo de localização de ocorrência do perigo. Porém, em 57,8% dos casos ela se limitava ao município e 20,8% a uma região, enquanto 5,9% traziam uma localização específica. Essa informação é importante para que as pessoas possam avaliar sua proximidade em relação ao perigo.
Outro resultado merece destaque. Cerca de 89,6% das mensagens apresentavam algum tipo de orientação, mas as recomendações eram frequentemente genéricas. Orientações como evitar áreas de risco ou procurar autoridades apareciam com mais frequência. Para os pesquisadores, o estudo mostra que a comunicação precisa avançar de orientações genéricas para ações específicas, compreensíveis e executáveis, e adaptadas às características da população, como pessoas idosas, pessoas com deficiência e comunidades com diferentes condições de acesso à informação e aos serviços de emergência.
As informações relacionadas ao início e término do alerta também apresentaram limitações. Cerca de 24% das mensagens indicavam a data de início do evento, enquanto apenas 9% informavam a data de término. Em relação aos horários, 79,5% apresentavam o horário de início e 32,9% o horário de término.
“Não basta enviar um alerta. Ao receber uma mensagem, a pessoa precisa conseguir identificar se está em risco, entender o que está acontecendo, saber onde o evento pode ocorrer, o que deve fazer e por quanto tempo precisa permanecer em alerta. Quanto mais clara e específica for a mensagem, maiores são as condições para que ela seja compreendida e utilizada na tomada de decisão”, explica Luciene Pimentel da Silva, professora e pesquisadora da PUCPR, uma das responsáveis pelo estudo.
A pesquisa também identificou diferenças na proporção de mensagens completas entre os estados brasileiros. Santa Catarina apresentou 11,8% de mensagens completas e o Rio Grande do Sul, 11,5%, enquanto Minas Gerais e Goiás apresentaram 0,1%. Esses percentuais correspondem à proporção de mensagens completas dentro do conjunto analisado de cada estado e não constituem, isoladamente, uma avaliação da capacidade dos órgãos estaduais de proteção e defesa civil.
A maioria das mensagens analisadas dizia respeito a chuvas intensas (73,6%), seguidas por baixa umidade do ar (8,5%) e granizo (4,2%). A primavera e o verão concentraram 72,5% dos registros, enquanto janeiro (15,9%) e dezembro (13,4%) foram os meses com maior frequência de mensagens.
Para os pesquisadores, a limitação tradicional de 160 caracteres do SMS representa um dos desafios para a inclusão de informações mais completas e específicas nos alertas. Por isso, o estudo recomenda a combinação de diferentes canais de comunicação, utilizando cada meio de acordo com suas características e limitações. Além do SMS, tecnologias como Cell Broadcast, aplicativos de mensagens, sistemas locais de comunicação e outros meios podem ser integrados em uma estratégia multicanal.
“Não existe necessariamente um único canal capaz de atender a todas as situações. Um sistema multicanal precisa considerar as características da população, incluindo diferentes níveis de alfabetização e acesso à informação, a presença de pessoas idosas, pessoas com deficiência e outros grupos que podem enfrentar barreiras de comunicação; as características do território; os meios de comunicação disponíveis e acessíveis; e a dinâmica do fenômeno. Um evento de evolução muito rápida pode exigir uma comunicação imediata e redundante, enquanto eventos de evolução mais lenta podem demandar atualizações sucessivas, acompanhamento da situação e orientações progressivas”, destaca Murilo Noli da Fonseca, pesquisador e um dos responsáveis pelo estudo.
O estudo também destaca a importância da capacitação dos profissionais responsáveis pela elaboração e disseminação dos alertas. Protocolos e modelos de mensagens podem contribuir para que informações essenciais sejam incorporadas mesmo em situações de pressão e emergência. Campanhas educativas, reuniões comunitárias, treinamentos e simulações também podem ajudar a população a reconhecer os diferentes tipos de alerta, compreender as orientações e saber previamente como agir diante de situações de risco.
A pesquisa “Disaster warning messages: challenges and opportunities based on Brazil’s experience”, assinada por Murilo Noli da Fonseca e Luciene Pimentel da Silva, foi publicada na revista Progress in Disaster Science. O artigo completo pode ser lido em: https://www.sciencedirect.com/


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