Ataques preconceituosos contra nordestinos dominam menções ao voto da região nas redes após o primeiro turno

O ódio alheio foi eficaz o suficiente para contaminar a autoestima de quem deveria ser sua vítima

Os números doem. Doem porque são muitos, doem porque são reais e doem porque revelam uma ferida antiga que o Brasil insiste em não tratar. Em menos de três dias após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, mais de 27 milhões de publicações nas redes sociais atacaram, humilharam e tentaram diminuir o Nordeste pelo simples fato de ter votado como bem entendeu. É o que aponta o levantamento da Ativaweb DataLab, batizado com uma precisão quase cirúrgica: “O Nordeste no banco dos réus”.

Banco dos réus. O nome diz tudo sobre o Brasil que ainda existe por baixo do verniz democrático que tanto gostamos de exibir ao mundo.

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O estudo identificou que parte expressiva das mais de 32,8 milhões de menções coletadas nas primeiras 72 horas após o primeiro turno associava os eleitores nordestinos à pobreza, à dependência de benefícios sociais e, numa crueldade que beira o medieval, à incapacidade intelectual de compreender a política. Quase um em cada cinco comentários analisados colocava em dúvida se o nordestino tem cérebro suficiente para exercer um direito que a Constituição garante a qualquer cidadão brasileiro acima de 16 anos.

O que mais perturba, porém, não é apenas a violência vinda de fora. É a que vem de dentro. O levantamento registrou que mais de um quarto dos termos ofensivos identificados estavam relacionados à vergonha da própria identidade regional. Nordestinos pedindo desculpas por serem nordestinos. Maranhenses, pernambucanos, baianos, piauienses envergonhados de onde nasceram. Publicações assim chegaram a reunir dezenas de milhares de curtidas, o que indica que o ódio alheio foi eficaz o suficiente para contaminar a autoestima de quem deveria ser sua vítima.

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Não há como ler esse dado sem pensar nas estruturas históricas que tornam possível esse tipo de autoflagelação coletiva. O Brasil construiu o Nordeste como espaço da falta: falta de chuva, falta de desenvolvimento, falta de dinheiro, falta de inteligência. Essa narrativa não nasceu ontem. Ela foi forjada durante séculos de concentração de poder, renda e infraestrutura nas regiões Sul e Sudeste, enquanto o Norte e o Nordeste eram mantidos à margem e, ao mesmo tempo, culpados por essa marginalização.

Quando alguém publica que o Nordeste deveria se separar do Brasil, está reproduzindo, com outros termos, a mesma lógica colonial que durante tanto tempo justificou a desigualdade regional como se fosse consequência natural da preguiça ou da ignorância do povo que ali vive, e não resultado de escolhas políticas deliberadas de quem detinha o poder.

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A pesquisa faz uma ressalva importante: os 82,2% de conteúdos classificados como críticos ao voto nordestino não são necessariamente xenofóbicos. Crítica política é legítima. Divergência eleitoral é saudável. Democracia se faz com votos diferentes. Mas há uma linha clara entre discordar de uma escolha e desumanizar quem a fez. E essa linha foi cruzada, repetida e violentamente, por uma parcela significativa do que circulou nas redes nas primeiras horas após a apuração.

Para o Maranhão, o levantamento não oferece um recorte específico. Não sabemos com precisão quantas das publicações ofensivas tinham como alvo os maranhenses, nem quantas partiram daqui. Mas sabemos que o estado está inserido no mesmo contexto nordestino que o estudo radiografa, e que a polarização nacional tem seus ecos locais, com toda a complexidade que a política maranhense carrega.

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O que não podemos fazer, seja em São Luís, em Fortaleza ou em qualquer outra cidade do Nordeste, é normalizar. Não podemos tratar como ruído aceitável de campanha o que é, na essência, discriminação regional com potencial inclusive de responsabilização legal, como bem alerta a pesquisa.

A dois dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a questão que fica não é apenas em quem o Nordeste vai votar. A questão é o que o Brasil vai fazer com o ódio que expôs nas redes. Vai fingir que não viu? Vai relativizar como exagero de fim de campanha? Ou vai, finalmente, olhar para essa ferida com a seriedade que ela merece?

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O Nordeste não precisa de desculpas pelo seu voto. Precisa de um país que o respeite como parte integrante e fundamental da nação que ajudou a construir, com seu trabalho, sua cultura e, sim, com seu voto.

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