Há uma negociação silenciosa tomando forma nos corredores do poder em Brasília. Discretamente, uma ala do Partido Liberal começa a desenhar o que chama de solução “mais pacífica” para um problema que, na verdade, é criação da própria direita bolsonarista: a ideia de pressionar ministros do Supremo Tribunal Federal a abandonarem seus cargos antes do tempo, como alternativa ao desgastante caminho do impeachment.
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A estratégia, se é que merece esse nome, é ao mesmo tempo reveladora e preocupante. Reveladora porque expõe a fragilidade do projeto bolsonarista diante das instituições. Preocupante porque normaliza, com linguagem amena, o que é na essência uma tentativa de interferência política no Poder Judiciário.
Falar em aposentadoria “voluntária” como saída para Alexandre de Moraes ou Flávio Dino não é uma proposta republicana. É uma pressão institucional revestida de eufemismo. A diferença entre empurrar alguém para fora e convidá-lo a sair está apenas na intensidade da força aplicada.
O STF não é um cargo eletivo. Os ministros não prestam contas às bancadas partidárias, nem deveriam. A independência do Judiciário existe precisamente para blindar a Corte de maiorias parlamentares temporárias, de governos que passam e de partidos que, a partir de 2027, precisarão lembrar que um terço do Senado não é o Senado inteiro.
Há uma ironia pesada nessa história. O mesmo campo político que passou anos bradando contra o que chamava de “ativismo judicial” agora demonstra, sem pudor, que o problema nunca foi o ativismo em si, mas sim de qual lado ele apontava. Quando o Supremo defendeu as urnas, a democracia e as minorias, virou inimigo. Quando convém, a solução encontrada é negociar nos bastidores a saída dos magistrados que incomodam.
O povo brasileiro, e especialmente o povo maranhense, que conhece de perto o que significa ter direitos negados e instituições capturadas por interesses privados, precisa estar atento a esse movimento. A democracia não se sustenta apenas em eleições. Ela vive ou morre na qualidade das suas instituições, na separação efetiva entre os poderes e na capacidade de o Judiciário resistir a pressões de qualquer natureza.
Que o PL tenha a maior bancada do Senado a partir de 2027 é um dado da realidade eleitoral. Que esse tamanho se converta em instrumento de intimidação ao STF é uma linha que uma república séria não pode deixar cruzar.


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