Há uma certa poesia cruel na imagem de um homem saindo da prisão e recebendo, quase que imediatamente, o telefonema de um senador da República. Não um telefonema qualquer, daqueles de solidariedade protocolar entre conhecidos distantes. Uma ligação de quem, meses antes, jurava publicamente não saber sequer quem era aquela pessoa.
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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mal havia cruzado os portões do Centro de Detenção Provisória 2 de Guarulhos, na tarde do dia 29 de novembro de 2025, quando um funcionário se aproximou e lhe estendeu um celular. Do outro lado da linha estava Flávio Bolsonaro. A informação, apurada em coluna jornalística, é mais um capítulo de uma relação que o senador fez de tudo para esconder do País.
Quando o Intercept revelou, em maio, que Flávio havia solicitado 24 milhões de dólares ao banqueiro, o senador reagiu com o que a política conservadora brasileira pratica com maestria: a negação total. Ele não conhecia Vorcaro. Não havia relação. Não havia nada. Era tudo invenção da imprensa, naturalmente.
Mais de uma semana depois, com as evidências empilhadas, o senador convocou uma coletiva de imprensa. Não para pedir desculpas pela mentira. Para “esclarecer”. Disse que havia ido à mansão do banqueiro para “dar um ponto final” na relação. Que, se soubesse da gravidade da situação, teria procurado outros investidores. A construção da narrativa é sofisticada, mas a contradição é grotesca: como se dá um ponto final em uma relação que, segundos antes, sequer existia?
As mensagens recuperadas pela Polícia Federal revelam um Flávio Bolsonaro ansioso, insistente, quase desesperado. Nos quatro dias anteriores à primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, o senador tentou contato diariamente. Ligações não atendidas, mensagens sem resposta. Até que, no dia 16, véspera da prisão, escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Não é a linguagem de quem quer encerrar uma relação. É a linguagem de quem tem muito a perder.
E o dinheiro público aparece nessa história com a naturalidade perturbadora que caracteriza o trato das elites com os recursos do Estado. O Senado Federal, financiado pelo contribuinte brasileiro, pagou as passagens aéreas de Flávio para suas idas e vindas a São Paulo naqueles dias turbulentos. No dia 29 de novembro, mesmo dia em que Vorcaro saiu da prisão e ligou para o senador, Flávio embarcou de Brasília para Congonhas. O custo: R$ 2.216,77. Dois dias depois, outra viagem. Mais R$ 2.919,29. Total: mais de cinco mil reais em passagens pagas pelo povo brasileiro para que um senador administrasse seus negócios privados e suas relações suspeitas.
Vale lembrar que, ao retornar a Brasília nessa segunda viagem, Flávio foi visitar o pai na Superintendência da Polícia Federal. E que, dias depois, anunciou publicamente sua candidatura à Presidência da República.
O Brasil é um país onde trabalhadores informais acordam antes das cinco da manhã para cumprir jornadas que mal garantem o básico. É um país onde a saúde pública sangra por falta de investimento, onde escolas funcionam sem estrutura, onde a moradia digna é privilégio de poucos. É também um país onde um senador pode mentir, negar, apagar mensagens do celular de um investigado e ainda assim usar o erário para transitar entre mansões e delegacias sem qualquer constrangimento aparente.


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