A NEUTRALIDADE É UMA MENTIRA QUE VOCÊ ACREDITOU

Cobrar que eu fale mal de Lula para compensar críticas a Flávio Bolsonaro não é um pedido de isenção. É um pedido de silêncio

Nos últimos dias, recebi cobranças de pessoas exigindo que eu fosse “neutro” na cobertura do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O argumento era: se eu criticava um candidato, precisava necessariamente criticar o outro, como se o equilíbrio jornalístico fosse uma questão de simetria aritmética entre os lados.

O que essas mesmas pessoas não percebem, ou fingem não perceber, é que essa cobrança nunca acontece no sentido inverso. Quando seus feeds transbordam de conteúdo favorável ao candidato de sua preferência, não há nenhum apelo pela neutralidade. Não existe, nesses casos, nenhuma exigência de que se publique algo negativo sobre o próprio ídolo para compensar o placar. A neutralidade, para essa parcela do público, é uma régua que só serve para medir o trabalho alheio.

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Estudei quatro anos de jornalismo. Aprendi, desde o primeiro semestre, que a neutralidade não existe. Toda escolha editorial tem uma direção: o ângulo escolhido para uma reportagem, a fonte ouvida primeiro, o dado destacado no lead, a fotografia selecionada para a capa. Tudo isso carrega uma concepção de mundo. Quem acredita consumir informação neutra geralmente está apenas recebendo um enquadramento com o qual concorda, sem perceber que essa concordância silenciosa é, ela mesma, uma posição política.

E curiosamente, são essas mesmas pessoas que passaram quatro anos afirmando que “odeiam política”, que não têm o menor interesse pelo tema, que agora surgem como analistas convictos, dispostas a lecionar sobre objetividade jornalística para quem dedicou anos ao estudo e à prática da profissão.

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Mas o problema vai além da arrogância do senso comum em período eleitoral. Ele revela algo mais estrutural sobre como a sociedade brasileira lida com o poder.

Nos últimos anos, tornou-se moda entre lideranças políticas proclamar que não são “nem de esquerda, nem de direita”. O discurso chega embalado em palavras como gestão, eficiência, pragmatismo e equilíbrio. Em um país com a política institucional em crise e a polarização nas alturas, a promessa seduz porque parece oferecer uma saída simples: seria possível governar deixando para trás as disputas ideológicas.

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O problema é que a política não acontece fora dessas disputas.

Toda decisão do Estado tem consequências reais sobre vidas concretas. Onde investir os recursos públicos, quais políticas priorizar, quais direitos ampliar, quais grupos proteger: essas escolhas não são técnicas, são políticas. A técnica pode informar uma decisão, ajudar a dimensioná-la, mas não responde, por si só, para quem os recursos devem ser destinados nem quais desigualdades merecem ser enfrentadas primeiro.

Desigualdade, racismo, violência contra as mulheres, concentração de renda, acesso à terra: esses não são problemas de gestão. São conflitos em torno de direitos, recursos e poder. Apresentá-los como questões meramente administrativas é uma escolha política disfarçada de neutralidade.

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A filósofa Sueli Carneiro nos deu uma bússola precisa para navegar por esse território quando afirmou: “Entre a esquerda e a direita, continuo negra”. À primeira vista, a frase poderia ser confundida com o discurso do “nem um, nem outro”. Mas as duas posições partem de lugares profundamente diferentes. Sueli não reivindica neutralidade, tampouco afirma que as disputas políticas são irrelevantes. Ela aponta para o que permanece invisível quando essas disputas se organizam sem enfrentar o racismo como dimensão estruturante da democracia.

Essa é a diferença entre autonomia política e falsa equivalência. Recusar um alinhamento automático para defender um projeto político antirracista não é o mesmo que se apresentar como “acima dos lados” enquanto se governa dentro das estruturas tradicionais de poder. No primeiro caso, amplia-se o debate. No segundo, oculta-se a disputa.

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O jornalismo comprometido com a realidade não opera na lógica da simetria mecânica. Ele opera na lógica da honestidade sobre as relações de poder. Isso significa perguntar: quem participa das decisões? Quem acessa os recursos públicos? Quais territórios recebem investimentos? Quais vidas são protegidas e quais continuam expostas?

A democracia não é a ausência de conflito. Pelo contrário: ela depende da possibilidade de tornar esses conflitos visíveis, de nomear as disputas que estruturam a sociedade e de abrir para a população o debate sobre como enfrentá-las. Um jornalismo que se esquiva dessa responsabilidade em nome de uma neutralidade que nunca existiu não é equilibrado. É conivente.

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Cobrar que eu fale mal de Lula para compensar críticas a Flávio Bolsonaro não é um pedido de isenção. É um pedido de silêncio sobre o que as escolhas de cada candidato revelam. E esse pedido, com todo o respeito, eu não tenho nenhuma obrigação de atender.

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