Existe uma coerência curiosa na narrativa do bolsonarismo que merece ser observada com atenção. Nos últimos anos, o movimento que gravitou em torno de Jair Bolsonaro construiu um discurso sistemático de desconfiança nas urnas eletrônicas brasileiras, um ataque sem provas, repetido à exaustão, que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Pois bem: no primeiro turno das eleições presidenciais deste domingo, a direita saiu na frente. E, de repente, o sistema eletrônico de votação voltou a ser o mais confiável do mundo.
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Nenhuma denúncia. Nenhuma live. Nenhum general convocado para explicar a “vulnerabilidade das urnas”. O silêncio é a confissão mais honesta que o bolsonarismo já produziu.
Mas o episódio mais revelador do dia não veio de Brasília. Veio de Mar-a-Lago.
Donald Trump, o maior exportador mundial da narrativa da fraude eleitoral, publicou em sua rede social um elogio entusiasmado ao sistema de apuração de votos brasileiros, com um detalhe constrangedor: ele chamou o Brasil de Índia. Em sua postagem, o ex-presidente americano exaltou a rapidez com que 125 milhões de eleitores tiveram seus votos contados, usando o exemplo para atacar o processo eleitoral dos Estados Unidos. O problema é que não havia eleição na Índia naquele domingo. Os 125 milhões de votos eram brasileiros.
Horas depois, Trump corrigiu o texto e trocou “Índia” por “Brasil”. Sem pedido de desculpas. Sem reconhecimento do erro. Apenas uma substituição silenciosa, como se a confusão geográfica entre dois dos países mais populosos do planeta fosse um mero detalhe de digitação.
Trump, que alimentou durante anos a suspeita sobre as urnas brasileiras ao lado dos Bolsonaro, agora elogia esse mesmo sistema, porque o resultado desta rodada favorece seus aliados políticos. A fraude, portanto, nunca foi uma questão de método. Foi sempre uma questão de resultado.
No Brasil, essa lógica já foi testada. Eduardo Bolsonaro e o estrategista Fernando Cerimedo chegaram a esboçar ataques ao sistema eletrônico no início do ano, mas recuaram diante da reação da opinião pública. A tentativa não prosperou. O terreno não estava fértil.
O que os últimos anos ensinaram, no entanto, é que esse tipo de narrativa não precisa de provas. Precisa apenas de uma derrota para ressurgir. E é por isso que a vigilância democrática não pode ser sazonal. Não se defende a soberania do voto popular apenas quando o resultado nos agrada. Defende-se sempre, contra qualquer força que tente condicionar a legitimidade das urnas ao próprio interesse eleitoral.
A urna brasileira resistiu ao golpe. Resistiu às lives, aos generais, aos acampamentos em frente aos quartéis. Resistiu, inclusive, à confusão geográfica de um ex-presidente americano que não sabe distinguir o Brasil da Índia, mas sabe muito bem como usar ambos os países quando é conveniente.
O voto do povo não tem dono. E isso incomoda exatamente quem mais finge defendê-lo.


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