A dois dias do primeiro turno das eleições brasileiras, Estados Unidos e Austrália decidiram fechar suas representações diplomáticas no Brasil alegando, em uníssono, “preocupações com a segurança”. Não apresentaram ameaça concreta. Não detalharam a natureza do risco. Não elevaram o nível de alerta para viagens ao país. Simplesmente fecharam as portas e, com esse gesto calculado, lançaram sobre o processo eleitoral brasileiro uma sombra que não tem substância, mas tem endereço.
✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
O governo brasileiro reagiu chamando o episódio pelo nome que merece: factoide. E fez bem.
A Polícia Federal, em comunicado divulgado apenas dois dias antes, informou que reforçará sua atuação em todo o território nacional para o período eleitoral. A corporação não apontou qualquer cenário excepcional de violência. Autoridades do alto escalão ouvidas pela imprensa descreveram o ambiente pré-eleitoral como de plena normalidade. O Brasil vai às urnas com a estrutura consolidada de uma das maiores democracias eleitorais do mundo, com urnas eletrônicas reconhecidas internacionalmente pela segurança e com a Justiça Eleitoral funcionando dentro da legalidade.
Diante desse quadro, a pergunta que qualquer cidadão tem o direito de fazer é simples: qual é, afinal, a ameaça?
A resposta, até agora, é o silêncio. E o silêncio, neste caso, é mais revelador do que qualquer nota diplomática.
Não é de hoje que potências estrangeiras, em especial os Estados Unidos, utilizam instrumentos simbólicos para interferir no clima político de países da América Latina em momentos decisivos. O fechamento de embaixadas, a emissão de alertas de segurança sem embasamento público, a criação de uma percepção difusa de instabilidade são ferramentas bem conhecidas do arsenal da ingerência velada. Não custam nada, não deixam provas e rendem muito em termos de narrativa.
O timing do anúncio americano agrava ainda mais o quadro. A medida foi adotada horas depois de a Advocacia-Geral da União pedir investigação sobre o destino de recursos dos Estados Unidos que teriam financiado iniciativas voltadas a atacar o Supremo Tribunal Federal. Pode ser coincidência. Mas coincidência, no campo da diplomacia, é um luxo que a ingenuidade pode pagar, e a soberania, não.
O que está em jogo não é apenas a credibilidade de dois países que não apresentaram um único elemento concreto para justificar suas medidas. O que está em jogo é o direito do povo brasileiro de conduzir seu processo eleitoral sem que narrativas construídas fora de nossas fronteiras contaminem o ambiente democrático nas vésperas da votação.
A embaixadora australiana Sophie Davies chegou a declarar publicamente que a decisão de fechar a representação do seu país se baseou no alerta americano. Ou seja: a Austrália nem ao menos possui uma avaliação própria da situação. Simplesmente seguiu Washington. Isso não é cautela diplomática. Isso é submissão a uma pauta que nem ela mesma sabe explicar.
Democracias robustas não se intimidam com factoides. O Brasil, que construiu ao longo de décadas uma institucionalidade eleitoral que é referência no mundo, não pode se deixar desestabilizar por gestos calculados de governos que, ao mesmo tempo em que encerram atividades consulares em nome de uma ameaça nebulosa, mantêm o nível de risco para viagens ao país exatamente onde estava antes.
Que os brasileiros votem em paz, com liberdade e com a consciência de que a tentativa de criar uma atmosfera de medo não encontrará eco em um povo que já aprendeu, a duras penas, o valor de defender sua própria democracia.


Deixe uma resposta