Existe um pacto não declarado na política brasileira: a religião deve ser respeitada, mas não instrumentalizada. Esse pacto, já frágil há anos, foi definitivamente rasgado nas últimas semanas. O que o relatório “Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral”, produzido pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, documenta com rigor é algo que a direita bolsonarista pratica com desenvoltura e que a esquerda ainda tenta responder com dificuldade: a transformação da fé popular em munição eleitoral.
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O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida é emblemático. Uma publicação de Flávio Bolsonaro negando ter pretendido retirar o título de padroeira do Brasil acumulou mais de 857 mil interações. O número não impressiona pela repercussão de uma mentira desmentida, mas pela velocidade com que a máquina bolsonarista converteu um erro jornalístico em narrativa de perseguição religiosa. Sóstenes Cavalcante não perdeu tempo: “Globo pede desculpas por fake news com evangélicos”. Não importa que o erro tenha sido da emissora e não uma conspiração deliberada. O que importa, nessa estratégia, é alimentar o ressentimento e ampliar a percepção de que a mídia é inimiga dos cristãos.
A carta assinada por Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Téo Hayashi e Robson Rodovalho acusando Lula de promover uma “guerra religiosa entre católicos e evangélicos” completa o quadro. São lideranças com imenso alcance pastoral sendo mobilizadas para fins eleitorais explícitos, colocando a palavra “guerra” em um debate que deveria ser sobre projetos de país. Chamar de guerra aquilo que é disputa política é uma escolha retórica, não uma descrição da realidade.
Nikolas Ferreira lidera o ranking de interações com mais de 13,6 milhões no período analisado. Seus vídeos sobre o caso Master são o principal motor desse alcance, e o relatório é preciso ao identificar o problema: as conexões entre personagens, fatos e responsabilidades são propositalment e nebulosas, criando um ambiente fértil para a desinformação. “Só Deus pode intervir” é, nesse contexto, menos uma declaração de fé do que uma convocação ao desespero institucional. Quando um parlamentar diz que apenas a intervenção divina pode resolver uma crise política, ele não está rezando, está desacreditando a democracia.
A esquerda evangélica existe, cresce e resiste. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reuniu 277 mil interações ao questionar a ideia de um “voto evangélico” homogêneo. Isso importa. A narrativa de que todo crente pertence à direita é uma construção ideológica que beneficia o bolsonarismo e invisibiliza décadas de teologia da libertação, de pastores nas periferias, de igrejas que acolheram quando o Estado abandonou. Benedita da Silva, Marina Silva e Henrique Vieira aparecem no monitoramento como contrapontos reais a essa tentativa de uniformizar a fé.
O que os dados revelam, no fundo, é uma disputa pelo sentido da religiosidade popular brasileira. A direita quer que o cristão identifique inimigos: a Globo, o STF, o PT, a CNBB. A esquerda evangélica quer que o cristão identifique causas: moradia, renda, dignidade, paz. São projetos radicalmente distintos de como a fé pode se relacionar com a vida pública.
O relatório da Casa Galileia presta um serviço importante ao nomear o que está acontecendo. Mas nomear não é suficiente. Enquanto a desinformação viaja em vídeos de alta produção e lideranças com milhões de seguidores, a resposta democrática ainda busca alcance. Essa assimetria é o verdadeiro desafio do campo progressista nas eleições de 2026.


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