Candidatos ao governo do Maranhão travam debate tenso e revelam visões opostas para o futuro do Estado

O que ficou mais evidente ao longo das quase três horas de confronto não foram as propostas, mas as disputas de narrativa.

Na noite desta terça-feira, a TV Mirante reuniu seis candidatos ao governo do Maranhão num debate que foi, ao mesmo tempo, espelho e espetáculo. Espelho porque refletiu, com nitidez incômoda, as contradições de um Estado que ocupa papel de destaque no agronegócio nacional e ainda convive com filas de ambulâncias em direção a São Luís. Espetáculo porque, num país acostumado a transformar política em entretenimento, nem sempre a substância vence o barulho.

O que ficou mais evidente ao longo das quase três horas de confronto não foram as propostas, mas as disputas de narrativa. Cada candidato chegou ao debate carregando uma versão do Maranhão que lhe era conveniente. E foi nessa disputa de versões que o eleitor maranhense precisou, mais do que nunca, aprender a escutar o que não foi dito.

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Felipe Camarão, candidato do PT, foi o que mais se esforçou para colocar os trabalhadores no centro do debate. Ao defender o programa Minha Casa Digna, ao falar em concursos públicos para a Caema, ao recusar a privatização de uma empresa que abastece famílias no interior, Camarão sinalizou uma visão de Estado que não abandona quem está embaixo. Sua ligação com o presidente Lula foi atacada como fraqueza pelos adversários. Mas, num Estado onde o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida chegaram onde o poder local não chegou, essa ligação é, antes de qualquer coisa, uma responsabilidade política com os mais pobres.

Saulo Arcangeli, do PSTU, foi a voz mais incômoda do palco, no sentido mais nobre do termo. Ao questionar a taxa de letalidade policial, ao denunciar que 90% dos trabalhadores da saúde maranhense são terceirizados, ao colocar o dedo na ferida do Matopiba e no avanço do agronegócio sobre territórios de comunidades tradicionais, Saulo fez o que a maioria dos candidatos se recusou a fazer: nomear os conflitos reais.

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Do outro lado, Eduardo Braide apostou numa campanha de gestão técnica, quase asséptica. “Enquanto eles discutem ideologia, eu estou pensando em resolver os problemas”, disse, em frase que soa bem na superfície, mas esconde uma escolha política disfarcada de neutralidade. Não existe gestão sem ideologia. A pergunta é sempre: em favor de quem se governa.

Orleans Brandão trouxe os programas do atual governo como bandeira, e o fez com certa habilidade. O Maranhão Livre da Fome foi mencionado com orgulho, e justo seria reconhecer que transferência de renda salva vidas. Mas o debate revelou também as contradições de uma gestão que avançou em alguns indicadores sem distribuir poder, sem enfrentar os latifúndios, sem romper com as estruturas que mantêm o Maranhão como fornecedor de riqueza para outros e consumidor de miséria para si mesmo.

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Roberto Rocha, por sua vez, insistiu na industrialização como saída, e não estava errado em apontar que a produção maranhense “chega ao Porto Itaqui e vai embora”. Mas faltou ao senador dizer, com a mesma clareza, quem detém essa cadeia produtiva e para quem os lucros são destinados.

André Luís, com seu discurso de ruptura com as oligarquias, capturou um desejo real de parte do eleitorado. Mas quando a proposta de ajuste fiscal é apresentada como solução central, é necessário perguntar: ajuste sobre o quê, e sobre quem? Nos países onde esse receituário foi aplicado, foram os serviços públicos os primeiros a encolher, e com eles, os que mais precisam deles.

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O debate de terça revelou que o Maranhão chega a 2026 diante de uma encruzilhada conhecida: entre um projeto de desenvolvimento que fica na boca dos grandes e um que começa nas mãos de quem trabalha. Entre um Estado que atrai empresas com isenções fiscais e depois não tem dinheiro para delegados, delegacias e leitos de hospital. Entre a soja que enriquece o porto e a família que ainda espera água encanada.

O primeiro turno acontece no próximo domingo. E o eleitor maranhense, mais do que escolher um nome, precisará decidir que Maranhão quer ver governado.

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