Apoio afetivo e esperança têm relação inesperada com vontade de viver em pacientes paliativos

Foto ilustrativa de apoio afetivo: esperança mantida protege vontade de viver em pacientes paliativos, aponta estudo cearense

Pacientes oncológicos sob cuidados paliativos podem apresentar maior ou menor vontade de viver, dependendo do contexto social e de níveis de esperança mantidos ao longo do tratamento. A análise é de pesquisadores do Instituto do Câncer do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará (UECE), que apontam: 77% dos avaliados mantiveram a vontade de viver elevada durante o acompanhamento. Enquanto a manutenção da esperança foi um fator protetor, o apoio afetivo teve nuances mais complexas, o que pode estar associado à sensação de sobrecarregar entes queridos. Fatores sociodemográficos e clínicos, como idade, tipo de câncer, renda ou presença de metástases não tiveram influência significativa. A análise foi publicada na Revista Bioética na sexta (25). 

Estudos anteriores colocam a vontade de viver como diretamente associada a uma assistência paliativa de qualidade. Para medi-la, os cientistas aplicaram uma ferramenta simples, desenvolvida para a pesquisa: a Escala Analógica da Vontade de Viver (VdV), que consiste na atribuição de uma nota de 1 a 10 pelo paciente. Os pesquisadores também investigaram fatores sociodemográficos e avaliaram sintomas, tipo de apoio social recebido, condições de saúde mental e nível de esperança dos pacientes, em duas entrevistas conduzidas com três meses de intervalo, realizadas entre abril e outubro de 2023. Foram 60 participantes, pacientes do Hospital Haroldo Juaçaba, em Fortaleza (CE), com perfil majoritariamente do sexo feminino, de em média de 65 anos, baixa escolaridade (até ensino fundamental) e renda entre 1 e 2 salários-mínimos. A maioria (78%) não apresentava vínculo empregatício no momento da entrevista.

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A vontade de viver permaneceu alta na maioria dos pacientes (77%), sem influência de fatores sociodemográficos ou clínicos. Inclusive, nesta amostra e período, depressão, ansiedade e estresse não tiveram correlações significativas. Já o apoio social — especificamente nas dimensões afetiva e de interação social positiva — foi um fator de impacto: um maior apoio afetivo no início esteve associado a uma menor vontade de viver, enquanto uma baixa interação social positiva na segunda etapa também se associou a uma redução no construto (as dimensões material e emocional/informacional do apoio social não apresentaram associação significativa).

Segundo a coautora Andreza Soares, são resultados que devem ser interpretados com cautela: “Isso não significa que o afeto seja prejudicial, mas que é preciso compreender como o paciente percebe esse cuidado e seu lugar dentro das relações. Uma possível interpretação discutida no trabalho é que, à medida que a doença progride e a pessoa se torna mais dependente, ela pode passar a se preocupar em representar uma sobrecarga emocional, física ou financeira para familiares e amigos. Isso sinaliza a importância de conversas sobre planejamento avançado de cuidados, que podem ajudar o paciente a recuperar o senso de controle sobre o próprio processo de cuidado e de morte”, explica. 

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O estudo também apontou para a esperança como fator protetor. “Uma esperança mantida alta ao longo do tempo foi protetora para a vontade de viver”, relata Soares. Por outro lado, a esperança elevada no início também pode ser um fator de impacto negativo. “Isso pode, em alguns casos, refletir um otimismo irrealista, raciocínio motivado ou autoengano, fenômenos que podem levar a frustração e redução da vontade de viver quando a realidade da doença se impõe. Em contrapartida, manter a esperança ao longo do tempo foi protetor. Isso levanta uma questão ética importante: como cultivar uma esperança realista que sustente a vontade de viver sem alimentar falsas expectativas?”

São resultados que demandam uma análise mais aprofundada, que Soares sugere ser complementada com análises qualitativas para sua melhor compreensão. Mas considerando a prática clínica em cuidados paliativos e o relevante significado do construto, a pesquisadora sugere às equipes incorporar a avaliação da vontade de viver em suas rotinas. “O instrumento simples criado para o estudo (uma escala analógica de 1 a 10) pode ser um ponto de partida prático para conversas sobre esse tema complexo na clínica”, recomenda.

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