Autoria: Lucas Barbosa. Historiador. Escreve sobre Brasil com foco em questões econômicas, imperialistas, agrárias e raciais.
Era 1970. Damiana Campos, do hoje reconhecido Quilombo Rio do Meio, cidade de São Bento, empreende uma viagem à capital do Maranhão, São Luís. Vem ela com suas três filhas construir morada. Ali, se estabelece no bairro do Cavaco (onde hoje chamamos de Bairro de Fátima).
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Damiana Campos, por seu feito, acaba se tornando matriarca da família Campos. Não por acaso: por ter sido a primeira a ter a coragem de mudar para a capital, acaba sendo o elo entre uma cidade e outra: quando voltava a São Bento, em viagem de barco que poderia durar seus 11 dias, levava consigo roupas e outros materiais para a lida na roça comunitária da família Campos.
Vinha de lá, também, com outros tantos filhos. Damiana, apesar de ter apenas três filhas biológicas, teve mais de 20: já que foi a pioneira a vir para a capital, todos e todas que desejavam uma vida de sonhos vendidos pelas rádios vinham com ela.
Logo depois, se estabelece na Salina do Sacavém, naquele tempo em que soterravam o rio das Bicas na direção de onde funcionava um porto para construir morada, a partir de palafitas. Naturalmente, uma vila inicialmente feita de pescadores. Minha avó, Jovência, em 1977 já havia seu terreno de morada nesse bairro, comprado pelos esforços de Damiana, sua mãe e minha bisavó. Ali morava, sendo vizinha de suas duas irmãs Joana e Ermita e outros tantos de São Bento, que são nossos parentes. Na verdade, eu lembro muito bem de quando fui pela primeira vez a São Bento e percebi tantos rostos conhecidos: ali me dei conta de que a Salina do Sacavém era composta pelo menos em parte por pessoas daquela cidade.
Essa história não é estranha e nem alheia às outras pessoas de São Luís, ainda que não a reconheçam em minha própria história.
Isso porque a trajetória de Damiana não foi única. É conhecida a história do êxodo rural dos anos de 1970 dos campos para a capital maranhense. A bem verdade, é possível dizer que a cidade de São Luís, em sua parte mais densamente povoada, era tão pequena que poderia caber até o Bairro do Monte Castelo. Sabe-se que era até ali a zona urbana de São Luís.
A verdade é que foi esse êxodo rural que formou a cidade. As pessoas que chegavam se fixavam à beira do caminho grande, aquele que inicia na conhecida rua grande do Centro de São Luís e vai até São José de Ribamar, passando por bairros como João Paulo (que já era a capital do subúrbio), Jordoa, Sacavém, Santa Cruz, etc. O êxodo foi tão grande que as ocupações acabaram, também, descendo para o Coroado, Redenção, Coroadinho, Sacavém, etc., formando bairros negros lindeiros à Avenida dos Africanos, bem como ao outro lado, bairros como Vila Palmeira, Barreto, Caratatiua, Apeadouro, etc., lindeiros à Avenida dos Franceses.
Acontece que o campo maranhense é negro. Sabemos, por exemplo, que o Maranhão é um dos Estados com maior número de quilombos da Federação, ficando em seu segundo lugar no ranking. Nesse sentido, naturalmente as pessoas que no caminho grande se fixaram, eram pessoas negras.
Mundinha Araújo, quando começa a investigar as terras de preto no Maranhão, inicia seus trabalhos justamente quando começa a perceber que as pessoas negras de São Luís, em sua maioria, estavam relacionadas a uma cidade natal no interior. Eu mesmo quando era criança, estudando numa escola no Coroadinho, achava esquisito quando uma criança não “tinha interior”: como assim tu não tem interior? TODO MUNDO tem interior.”
Hoje é possível ver que, assim como na Salina do Sacavém há muitas pessoas de São Bento, as outras ocupações da cidade foram feitas seguindo uma lógica: era como se brasileiros procurassem comunidades de brasileiros em Londres (ou mesmo como se fosse a família de Tio Salú, irmão de minha bisavó Nanana, em que sua prole migrou para florianópolis procurando um bairro de maranhenses. Lá eles fazem um reggae, em melhor estilo maranhense: agarradinho).
Nesse contexto, os bairros acabam se tornando microcosmos de outras cidades do campo maranhense. As associações culturais formadas pelo povo negro em São Luís são prova disso. Na Jordoa, a Associação Afro Omnirá Cururupu; no Bairro de Fátima, Novo Boi de Viana, Boi de Pindaré, com mestres vindos de São João Batista; no Monte Castelo, Boi Unidos de São Bento. E contando! Conversando com outras pessoas, é possível saber que existem muitos moradores da Rua da Cerâmica, no João Paulo, que vieram de Penalva.
O que quero dizer é que eram comunidades quilombolas que se fixavam na cidade de São Luís. Com sua rede de valores socioeconômicos comunitários, faziam feiras para vender suas pequenas produções, e na verdade muitos vinham com o objetivo de formar suas pequenas plantações e criações no seio da cidade grande. O bairro do Sacavém, já dizia Batista Botelho em pesquisa, era cheio de sítios em seu povoamento, antes de se tornar uma favela. (Mas minha bisavó não. Vó Nanana era vendedora, e vendia comida para os trabalhadores do conjunto do Parque Amazonas).
Portanto, São Luís é uma cidade que, para além de muitas coisas, tem um contato forte com o campo, com a pequena produção comunitária e com a vida produzida nos quilombos sob ethos de resistência do povo negro como povo. São Luís é uma cidade negra.
Foi um grande ganho quando, em 2018, o Bairro da Liberdade tenha lutado e conseguido o título de Quilombo Urbano, sendo este o maior da América Latina. Formado por pessoas principalmente de Alcântara, carrega um ethos cultural negro do interior que veio com estes para a cidade, transformando o bairro em um símbolo cultural do povo preto. Mas a despeito da importância do título, é necessário ir além de características artístico-culturais negras para um Quilombo ser, assim, considerado. A cultura é apenas um aspecto dessa questão, e se me permitem dizer, não é o mais importante.
A questão aqui são as relações sociais, produzidas sob ethos comunitário negro, que, para se assegurar como povo, se apega às suas tradições e ancestralidade para se afirmar enquanto grupo específico diante de uma sociedade ideologicamente branca. Que essas relações sociais são comunitárias, justamente porque assim se produzem laços de solidariedade que podem atingir o fim de se assegurar enquanto grupo.
Que esse ethos, portanto, influencia no seu modo econômico de produção, feita a partir de bases comunitárias e familiares, a partir de posse coletiva da terra. Que, portanto, todo esse histórico gera um tipo outro de sociabilidade, baseada na solidariedade coletiva, em contato forte entre vizinhos, entre ajuda mútua e espírito forte de colaboração. Laços, a bem dizer, difíceis de serem encontrados em conjuntos habitacionais proletários na cidade, que acabaram, alguns desses, se tornando conjuntos da classe média ludovicense. Andar dentro do conjunto da COHEB Sacavém e da Favela do Sacavém, cortadas por uma rua, carrega uma experiência diferente.
São essas as principais características a serem observadas em um Quilombo Urbano. Que faz de São Luís uma cidade negra, com forte ligação com o campo, com as terras de preto, e com seus valores enquanto povo. Só a partir daí, inclusive, se pode compreender as associações comunitárias colaborativas que se refletem nos bois, nos terreiros, escolas de samba, blocos tradicionais, entre outros.
Arriscaria dizer que o Boi Oriente, da Vila Passos, é um grande exemplo disso. Tem sido bastante veiculado o vídeo de uma das fundadoras do Boi, feito a partir de uma promessa a São João. Partindo de uma violenta disputa por territórios na cidade de São João Batista, em que latifundiários queriam tomar, via grilagem, as terras da comunidade em questão, a fundadora promete ao Santo colocar um Boi para brincar se sua família saísse viva do conflito.
Essa acaba sendo uma outra face do êxodo rural: as disputas por terras. Brincando na cidade de São Luís, o boi, para além de seu aspecto artístico-cultural, representa a solidariedade de grupo perante uma disputa violenta por terra contra comunidades muitas vezes centenárias que passam a lutar por seu pedaço de chão. O boi representa a resistência, e a continuidade da promessa representa a união solidária do povo negro diante da situação de violência, dessa vez numa comunidade negra de São Luís.
Não é por acaso, inclusive, que bairros como Coroadinho, uma das 10 maiores favelas do Brasil; e do Santa Cruz, reivindicam o posto de Quilombo Urbano. Nem mesmo o fato de que, qualquer professor localizado no Anil observe o bairro a partir dessa lógica, ao compreender a sociabilidade negra do bairro.
O corredor do caminho grande, bem como o caminho do trem, devem ser estudados e observados sob essa ótica. A partir de então, perceberemos que a cidade de São Luís, inteira, integra um grande Quilombo Urbano.


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