Faltam vinte dias para as eleições e o Brasil ainda não sabe para onde vai. A mais recente pesquisa da Quaest, divulgada esta semana, traz um retrato que merece ser lido com cuidado, além dos titulares apressados que celebram ou enterram candidaturas antes do tempo.
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Luiz Inácio Lula da Silva segue na liderança do primeiro turno, com 36% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 31%, reduzindo a diferença de sete para cinco pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Os que querem transformar esse movimento em virada histórica precisam respirar fundo: cinco pontos dentro da margem de erro não são uma virada, são uma oscilação. Mas oscilações a vinte dias do pleito merecem atenção.
O que os números revelam com mais nitidez, no entanto, não está nas intenções de voto declaradas, mas naquilo que os próprios eleitores confessam sentir. Segundo a mesma pesquisa, 44% dos entrevistados dizem ter mais medo de um novo governo Lula, enquanto 42% temem a volta dos Bolsonaro ao poder. É um empate emocional que diz muito sobre o estado de uma democracia quando o voto deixa de ser uma escolha e passa a ser um gesto de defesa. Com menos de três semanas para a decisão, esse cenário de medo mútuo é talvez o dado mais preocupante de todo o levantamento.
Esse dado precisa ser encarado com seriedade pela esquerda. Uma parcela significativa da população ainda associa o projeto lulista ao risco, ao autoritarismo ou à desordem. Parte disso é fruto de anos de desinformação sistemática, de uma mídia concentrada e de redes sociais que funcionaram como fábricas de ansiedade coletiva. Mas parte é também responsabilidade de um governo que não conseguiu comunicar suas realizações com a mesma eficiência com que seus adversários comunicaram os seus erros. A vinte dias do voto, o tempo para corrigir essa equação é curto.
A queda na aprovação do governo, de 45% para 43%, e o crescimento da desaprovação, de 48% para 50%, reforçam esse diagnóstico. Governar bem não é suficiente quando o campo adversário tem barulho, organização e financiamento para dourar qualquer derrota e amplificar qualquer tropeço.
Do outro lado, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa a tentativa de reembalar um projeto político que o país já experimentou e que deixou marcas profundas: mais de 700 mil mortos na pandemia, ataques às instituições democráticas, destruição ambiental acelerada e uma polarização social que ainda sangra. O senador carrega o sobrenome como ativo eleitoral, mas também como peso histórico. E os eleitores terão vinte dias para decidir o que fazem com essa memória.
O segundo turno empatado tecnicamente entre os dois, com 42% para Flávio e 40% para Lula, é um alerta que não pode ser ignorado por quem acredita que a democracia brasileira precisa avançar, e não retroceder.
O tempo acabou para promessas vagas e campanhas mornas. O que as próximas três semanas exigem das forças progressistas é capacidade de mobilizar esperança num país que, por ora, ainda oscila entre o medo do futuro e as cicatrizes do passado. Vinte dias é pouco. Mas ainda é tempo.


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