Dois a cada três adolescentes que fazem sexo com outros homens nunca fizeram teste de HIV, indica estudo

Tubos para teste de HIV: 65% dos adolescentes homens que fazem sexo com homens nunca se testaram, aponta estudo da UFC.

Dois a cada três adolescentes homens que fazem sexo com outros homens nunca realizaram um teste para detecção do HIV. O dado integra uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com outras instituições nacionais e internacionais, publicada na Revista Brasileira de Epidemiologia. Ao analisar a rotina de 287 jovens de 15 a 19 anos em Fortaleza e São Paulo, o levantamento revelou uma sobreposição de vulnerabilidades sociais e comportamentais que ampliam o risco de infecção pelo vírus e por outras infecções sexualmente transmissíveis.

Entre os participantes, cerca de 38% relataram uso inconsistente de preservativo e quase 44% afirmaram ter tido múltiplos parceiros sexuais nos três meses anteriores. Cerca de 24% apontaram o uso de drogas sexualizadas, definido no estudo como uma combinação de participar de festas de sexo com uso de drogas e relatar que álcool ou outras substâncias interferiram no uso de camisinha durante a relação. Esse cenário ganha contornos mais críticos porque, entre os que relataram uso inconsistente de camisinha, a maioria (76%) manteve relações sexuais com parceiros cujo status sorológico para HIV era desconhecido.

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“Talvez o dado mais marcante seja que a maioria dos adolescentes entrevistados nunca havia realizado um teste para HIV antes de participar do estudo. Isso chama ainda mais atenção quando observamos que muitas das relações ocorreram com parceiros de status sorológico desconhecido. Estamos falando de jovens com vida sexual ativa, que vivenciam múltiplas situações de vulnerabilidade, mas continuam distantes das estratégias básicas de prevenção e cuidado”, explica Marto Leal, pesquisador do Departamento de Saúde Comunitária da UFC e autor principal do estudo.

O cruzamento de dados identificou que o abandono da camisinha cresce quase três vezes entre aqueles que consomem bebidas alcoólicas semanalmente. Ter parceiros fixos adultos com 20 anos ou mais também esteve associado a uma frequência de sexo desprotegido superior a 90% nesse subgrupo. A dinâmica reflete desníveis de autonomia entre as idades, dificultando que o jovem imponha limites ou negocie a proteção.

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“A vulnerabilidade resulta da combinação de fatores individuais, relacionais e sociais. Um adolescente pode conhecer a importância do preservativo e, ainda assim, estar inserido em uma relação na qual possui menor poder de negociação ou em um contexto marcado por violência, estigma e desigualdades”, afirma Leal.

A pesquisa também captou diferenças estruturais entre as capitais. Em Fortaleza, os impactos do isolamento na pandemia de Covid-19 reduziram severamente os espaços físicos de convivência entre pares, empurrando os adolescentes para aplicativos e contatos com homens mais velhos. Em São Paulo, embora as redes de pares tenham se mostrado mais densas, os obstáculos envolveram a navegação pelas distâncias urbanas e o acesso desigual a serviços acolhedores de saúde.

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Entre os adolescentes que relataram uso de drogas sexualizadas, o estudo identificou associação com ter sofrido violência física, psicológica ou sexual (quase triplicando a chance) e com ter recebido dinheiro em troca de sexo (aumentando a chance em 70%).

“Não basta disponibilizar insumos na rede pública. Precisamos sair de uma lógica que espera o jovem chegar ao posto e construir uma prevenção ativa, que vá até as escolas, redes sociais e coletivos comunitários. O medo do julgamento, da quebra de sigilo ou do preconceito afasta o adolescente. Garantir privacidade, acolhimento sem moralismo e acesso facilitado à PrEP é a resposta necessária para interromper essa cadeia de infecções”, conclui o pesquisador.

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Para os autores, frear as infecções na juventude exige transformar o modelo de atendimento das unidades básicas de saúde. A superação do estigma depende de equipes preparadas para lidar com sexualidade sem julgamentos morais, da distribuição descentralizada da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) em locais frequentados pelos jovens e da reconstrução de espaços comunitários presenciais que devolvam o acolhimento e a proteção social a essa população.

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