candidatos negros crescem, mas Congresso ainda tem menos de 30% de eleitos pretos e pardos

Levantamento do Insper mostra que, apesar do aumento de candidaturas na última década, proporção de parlamentares negros nas duas Casas legislativas segue distante da realidade da população brasileira

A proporção de candidatos negros a deputado e senador aumentou na última década, mas o movimento ainda não se refletiu no número de eleitos nem na composição do Congresso Nacional. Atualmente, menos de 30% dos parlamentares de cada Casa legislativa se declaram pretos ou pardos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados em estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper (Neri).

Os números, embora ainda baixos, representam um avanço em relação a 2014. No Senado, a quantidade de negros eleitos passou de 18,5% para 22,2% na última eleição. Na Câmara dos Deputados, o percentual foi de 19,9% para 26,5% no mesmo período. Mesmo com o crescimento, os parlamentares negros que compõem as Casas continuam sendo minoria.

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O estudo do Neri, que reúne dados do TSE das eleições de 2014, 2018 e 2022, mostra um abismo entre a quantidade de candidaturas de pessoas negras e o número daquelas que de fato conseguem se eleger. O levantamento aponta o avanço da representatividade negra nas Casas legislativas federais e estaduais, mas deixa claro que o movimento não foi suficiente para garantir um número equilibrado entre negros e brancos no Parlamento.

Uma nota anterior do Neri já havia demonstrado esse aumento de candidaturas dentro da mesma janela de tempo e exposto que o Senado obteve a menor proporção de candidaturas nas últimas três eleições. No último domingo (16), o TSE disponibilizou os dados parciais de proporção das candidaturas registradas para 2026, após o encerramento do período partidário. O registro, porém, não garante que a candidatura seja efetivada, uma vez que a Justiça Eleitoral ainda precisa homologá-las e muitos pedidos podem descumprir pré-requisitos ou apresentar irregularidades.

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Com base nesses números preliminares, o TSE contabilizou 10.226 candidaturas de pessoas negras (2.803 pretas e 7.415 pardas) para todos os cargos em disputa. Somados, pretos e pardos representam 49,8% das candidaturas, proporção inferior aos 50,3% observados nas eleições passadas.

O estudo do Insper, por sua vez, observa apenas o cenário das candidaturas que efetivamente disputaram as eleições. Para essas análises, os pesquisadores utilizam o Índice de Equilíbrio Racial (IER), recurso que compara as proporções de candidatos ou eleitos negros com a proporção de pessoas negras da mesma região geográfica. O objetivo é avaliar se esse grupo está devidamente representado nas duas categorias. Se o índice estiver abaixo de 1, a proporção de negros em cargos ou candidaturas é menor do que a necessária para uma representatividade adequada.

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No caso dos eleitos, o índice segue negativo para todos os três cargos analisados desde 2014. O IER do Senado é o pior dos três grupos. Em 2014, o índice chegava a 0,80 e estagnou em cerca de 0,75 nas duas últimas eleições. Na esfera estadual, o índice saiu de 0,60 em 2014 para 0,49 em 2022, após ficar estagnado nas eleições de 2018.

A economista e pesquisadora Camila Alvarenga, que assina o estudo com o colunista da Folha Michael França, doutor em economia pela USP e coordenador no Insper, explicou que isso ocorre porque, mesmo que a composição bruta pareça favorável e parecida com a da Câmara, a representação relativa, ponderada pelo eleitorado negro de cada estado, é pior no Senado do que na Câmara.

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O estudo deixa claro que, por mais que haja aumento na proporção de eleitos de um ano eleitoral para outro, o número absoluto de pessoas negras eleitas ainda é baixo. Em todos os cargos, a queda na proporção de brancos é consistente ao longo do período, acompanhada de crescimento gradual de pardos e pretos. Alvarenga ressaltou que mesmo o patamar mais alto ainda representa uma sub-representação significativa, uma vez que a população negra em idade eleitoral é bem maior do que essa fatia de cadeiras conquistadas. Segundo ela, mesmo com uma melhora consistente ao longo dos três ciclos, o equilíbrio racial está longe de ser alcançado.

O Senado apresenta os percentuais mais extremos: em 2014, brancos representavam 81,5% dos eleitos e os pretos estavam completamente ausentes. Em 2022, pretos chegaram a 11,1% e indígenas a 7,4% — ambos correspondendo a apenas três e duas pessoas, respectivamente, em 27 vagas disputadas. A pesquisadora alertou que é importante olhar a tendência ao longo dos três ciclos e contar com outras métricas, e que o Senado regrediu um pouco entre 2018 e 2022, o que pode refletir a variação de uma ou duas pessoas, dado que os números absolutos são pequenos.

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A aferição de raça é colhida a partir de autodeclaração, tanto pelo Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quanto no registro das candidaturas. No site do Senado, o Observatório de Equidade do Legislativo disponibiliza parte das informações utilizadas para as análises comparativas do estudo, com o panorama do perfil dos parlamentares em recortes nacionais e de gênero e raça. Dentro desse site, há uma observação de que o dado de razão de chance não pôde ser feito em 2022, pois nenhuma mulher autodeclarada negra foi eleita.

Segundo dados do TSE de 2022, dos 540 parlamentares eleitos para a Câmara dos Deputados e para o Senado, 141 declararam-se negros. O crescimento foi de 8,5% com relação ao pleito anterior — de 2014 para 2018, o aumento havia sido de 22,6%. Para colaborar com o fim da sub-representação, a pesquisadora defende uma fiscalização das disparidades no financiamento de campanhas entre candidatos negros e brancos e a adoção de cotas partidárias.

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