Há algo de profundamente revelador no fato de o Tribunal Superior Eleitoral precisar, mais uma vez, explicar o que já foi explicado. Que a empresa venezuelana Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ao Brasil. Que ela tampouco desenvolveu qualquer software utilizado no processo eleitoral brasileiro. Que as urnas foram projetadas por servidores e técnicos da própria Justiça Eleitoral, fabricadas por empresas contratadas via licitação pública, e que, em 2020, a Smartmatic disputou justamente essa licitação e perdeu para a empresa Positivo.
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E, no entanto, na segunda-feira (21), o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL, repetiu diante de diplomatas estrangeiros a velha afirmação sem provas de que parte das máquinas usadas nas eleições brasileiras seria da Smartmatic. Para dar verniz de credibilidade à tese, o senador citou um relatório recentemente desclassificado da CIA sobre eleições na Venezuela. O problema é que o próprio documento deixa claro que a comunidade de inteligência norte-americana não confirmou a ocorrência de fraude eletrônica em larga escala no país vizinho entre 2004 e 2020. Ou seja: o argumento convocado para sustentar a acusação a desfaz.
A desinformação eleitoral no Brasil não opera por acidente. Ela é deliberada, calibrada e tem destinatários certos. Repetir a associação entre urnas brasileiras e uma empresa venezuelana, mesmo após dezenas de desmentidos formais, não é confusão, é política. É plantar dúvida no eleitorado, corroer a confiança nas instituições e preparar o terreno para, caso necessário, contestar resultados eleitorais futuros. O roteiro já foi ensaiado. Em 2022, o país assistiu a caminhoneiros bloqueando estradas e a militares sendo consultados sobre um golpe que, por pouco, não aconteceu.
A direita bolsonarista aprendeu com a derrota, mas não abandonou o método. Ela apenas ajustou o timing, antecipando o ataque ao sistema eleitoral para antes mesmo de a campanha de 2026 começar oficialmente. Flávio Bolsonaro fala para diplomatas porque sabe que o público interno já está, em parte, convencido. Agora, o objetivo é internacionalizar a narrativa, criar a impressão de que há uma controvérsia legítima onde não existe nenhuma.
O TSE age corretamente ao desmentir. Sua página Fato ou Boato é um instrumento necessário em tempos de infodemia política. Mas há um limite estrutural nessa resposta institucional: ela sempre chega depois. A mentira viaja rápido, e a correção caminha a pé. Enquanto o tribunal publica nota técnica, o senador já apareceu nos noticiários, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp. A semente foi lançada.
O que esse episódio exige não é apenas uma reação judicial. Exige vigilância política ativa da sociedade, da imprensa e dos partidos comprometidos com a democracia. Exige que cada declaração infundada seja contestada não apenas nos tribunais, mas no espaço público, com a mesma velocidade e capilaridade com que a mentira se espalha. Exige, também, que os veículos de comunicação resistam à tentação de tratar alegações sem provas como se fossem “versões legítimas” de um debate equilibrado, quando não são.
As eleições de 2026 serão difíceis porque uma parte do campo político brasileiro apostou que desacreditar as urnas é mais fácil do que ganhar votos. Essa aposta precisa ser derrotada antes mesmo das urnas abertas.
E o ponto de partida é exatamente esse: não deixar que o óbvio precise ser repetido em vão.


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