O governo dos Estados Unidos anunciou a intenção de taxar produtos brasileiros em 25% sob a justificativa de que o Brasil não estaria combatendo adequadamente o desmatamento. A alegação, no entanto, tem gerado controvérsia entre especialistas e autoridades brasileiras, que apontam inconsistências nos dados utilizados pela administração de Donald Trump.
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O relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que embasa a proposta tarifária, ancora suas conclusões em números do desmatamento registrados em 2021, ano em que a Amazônia perdeu cerca de 13 mil quilômetros quadrados, o maior nível em 15 anos, durante o governo de Jair Bolsonaro.
O documento do USTR sustenta que o desmatamento ilegal reduz artificialmente os custos de produção, conferindo ao Brasil uma vantagem competitiva considerada desleal no mercado internacional. O texto cita ainda fragilidades na fiscalização ambiental e no controle do Cadastro Ambiental Rural, além de mencionar suspeitas de “lavagem de gado” e subornos em licenciamentos – alegações que partem do governo americano e não correspondem a decisões judiciais ou investigações concluídas.
Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, a medida do governo Trump é infundada e tem motivação política. “O governo Trump está usando a questão ambiental para impor barreiras comerciais que servem apenas como uma desculpa. O governo Trump virou as costas para a questão ambiental no mundo inteiro. Saiu do Acordo de Paris”, afirmou Astrini, em entrevista à Agência Brasil.
O pesquisador destacou que os Estados Unidos não aplicam medidas de proteção ambiental equivalentes, como a redução da emissão de carbono, e que dezenas de outros países com índices de desmatamento não são alvo de taxação semelhante. “É uma medida puramente política, não tem nada a ver com a questão ambiental. É apenas uma desculpa para impor uma barreira tarifária ao país”, disse.
Os dados mais recentes contradizem a justificativa americana. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD2025), do MapBiomas, o país desmatou 984.794 hectares em 2025, uma redução de 20,6% em relação a 2024. Pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único an .
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou queda de 50% no desmatamento da Amazônia e de 32% no Cerrado entre 2022 e 2025 . O governo brasileiro apresentou esses dados ao USTR durante a investigação, mas as informações foram desconsideradas no documento final.
O relatório americano reconhece a redução recente, mas a trata como provisória, argumentando que as políticas atuais “podem ser desfeitas por administrações futuras”, o que, na prática, mantém a justificativa para as sanções.
A contradição fica evidente quando se observa que o governo Trump utiliza os piores números ambientais da gestão Bolsonaro para penalizar o Brasil, enquanto, no plano político, o presidente americano recebe e elogia publicamente membros da família Bolsonaro na Casa Branca, incluindo o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro.
A economista Carla Beni, em entrevista ao Conexão Record News, afirmou que os dados usados pelos EUA “não se comprovam”. Para ela, o momento exige calma e fortalecimento interno do Brasil diante das pressões externas.
O professor de Relações Internacionais da Unesp Marcelo Fernandes de Oliveira avalia que o principal motivo da ofensiva comercial americana não é ambiental, mas sim o sistema de pagamentos brasileiro. Segundo ele, o Pix é visto como uma ameaça por gigantes da tecnologia como Meta e Google, que pressionaram o governo Trump para abrir uma investigação.
A proposta tarifária foi divulgada no mesmo dia em que Donald Trump publicou elogios a Flávio Bolsonaro em sua rede social, Truth Social. Para críticos da medida, a coincidência reforça a leitura de que o argumento ambiental é uma cobertura técnica para uma medida de protecionismo comercial com motivações políticas mais amplas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que entregou pessoalmente a Trump documentos sobre todos os pontos elencados pelos americanos e disse ter sido pego de surpresa pela decisão. “Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa com a decisão deles”, declarou o presidente.
O governo brasileiro reagiu contestando a base técnica do relatório. O ministro João Paulo Capobianco afirmou que os dados apresentados pelo Brasil ao USTR foram ignorados, reforçando a percepção de que a investigação americana partiu de uma conclusão predeterminada . O governo Lula reforçou os números que apontam queda do desmatamento e os esforços de combate ao trabalho escravo.
A decisão final sobre a aplicação das tarifas é esperada até 15 de julho, podendo resultar em uma carga adicional que, somada a outra investigação em andamento, chegaria a 37,5% sobre as exportações brasileiras . O setor exportador brasileiro acompanha com preocupação o desdobramento do caso.


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